USE SEU TELESCÓPIO
USE SEU TELESCÓPIO
Ato de uma tragédia poética não escrita.
A cena passa-se em um lugar qualquer, sem ano definido. Uma rua escura e deserta, sem precedentes de viajantes, apenas ali esquecida após alguma esquina movimentada, quase que um beco, quase que uma rima, humildemente asfaltada. Num canto qualquer, um poste se esgueira na tentativa de iluminar o máximo que pode. O poeta dorme no chão abraçado a uma garrafa de vinho barato e um caderno velho com folhas soltas. Eleonor entra cantarolando uma melodia infantil.
ELEONOR
Que fazes um poeta adormecido em meio a calçada da minha rua?
POETA, acordando.
Não estava adormecido, estava pensando, conjugando verbos apaixonados, fazendo rima enquanto o mundo me esquecia.
ELEONOR
Pois suponho que esteja arranjando desculpa. Afinal, que pensamento haveria de ter enquanto dormes sujo? Muito menos com essa garrafa em teus braços como um filho no leito seguro da mãe. Não me tome como menina, sei muito bem que és apenas um poeta perdido, esquecido mesmo, mas não por estar dormindo, mas por beber sonhando.
POETA
Até que para uma mocinha, tens a língua muito afiada. Sinto dizer, doce menina, mas realmente estava criando rimas pra louvar apenas você.
ELEONOR
Como ousas me insultar assim?
POETA
E desde quando a poesia pode ser um insulto à tua majestosa beleza? Achas mesmo que não te via passar por aqui toda transbordando sentimentos, perfeita simetria da concepção do divino com a mais linda poesia? Passei dias mendigando amor e por isso me encontro aqui. Achei na bebida uma pausa nesses dias corridos, mas longos quando vistos por meus olhos poéticos. Acabei pensando em desistir de todas as minhas riquezas e eternizar minha herança no que guardo de melhor para ti.
ELEONOR
Então teima com a ideia que por mim estava esperando?
POETA
Sabia que por trás de tamanha beleza havia ceticismo. Diga, minha cara, quando olhas para o céu, contemplas as estrelas?
ELEONOR
Claro que sim.
POETA
Pois bem, assim sou eu contigo. Tu és a minha estrela, a constelação inteira. Não preciso te ter, te tocar, até mesmo te nomear; lhe aceito de bom grado, sem necessidade de pronome possessivo antes dos adjetivos que para ti reservei em minhas liras poéticas.
ELEONOR
Estrelas são distantes e apenas servem como pontos de luz em meio a escuridão. Sou de carne e osso, cheia de vivacidade. Quero mais do que ser apenas estátua celestial, quero viver, gozar da vida…
POETA
Disso tenho certeza, doce criança. Por isso uso um telescópio pra te observar todas as noites que caminha para tão longe de mim, distante desse poeta sujo, moribundo, cheio de marcas dessa vida; enterrado em tuas mil faces não sabendo mais quem realmente sou. Diga-me, menina, haveria alguma possibilidade de ter seu brilho apenas para mim? Por isso não ouso tocar, manifestar, nem mesmo recitar minhas tortas linhas poéticas, seria audácia demais para um único homem. Então, eu te busco entre a escuridão, te acho em calda de cometa, te desenho em meu caderninho velho cheio de amor e segredos de homem cansado de viver, que respira pesado. Porém, renasce cada vez que te vejo passar por essa rua com seus sapatinhos delicados, seus passos de menina, seu sorriso que queima minha face e ofusca meus olhos. De tudo nesse mundo, delicada flor, sobrou-me ser apenas poeta, dessa forma eternizarei tuas feições de perfeita em meus versos e rimas e nada mais.
ELEONOR
De todas as verdades ocultas por entre as respirações que se perdem enquanto é vida, digo que não sou grata das tuas rimas, poeta. Posso ser uma futura esposa, uma querida amiga, mas musa não. Recuso-me a ser a tua inspiração, a tua ode inacabada, teus sonetos perfeitos ou até mesmo deixar que use da minha pele como teu papiro. Isso não se faz, não posso permitir.
POETA
Eu sei, amada, eu sei. Por isso te transformei em estrela, tão distante, tão perfeita, tão brilhante e não minha. Assim, contento-me em ser apenas um observador dessa tua cantiga infantil; um homem que escreve, não por amor, mas por sobrevivência, porque este amor que guardo em meu peito, que alimenta meus dias, também é a lâmina da minha particular guilhotina. Deixo então, minha doce senhora, a herança mais minha, tão sua, tão nossa.
ELEONOR
Agradeço satisfeita por tuas rimas, meu poeta, mas não posso aceitá-las, guarde-as contigo e quem sabe um dia, venha até mim, recitá-las. Tenho paciência de vento que não cessa, de árvore que luta pra florescer, de rosa que mesmo linda expõe teus espinhos. Sou menina, confesso, mas com coração de mulher…
POETA, interrompendo Eleonor.
Não entendes a imensidão do meu holocausto de amor. Desconhece fervorosamente o motivo pelo qual durmo para pensar, porque acordado apenas rendo-me aos olhares nada inocentes para as curvas da tua catedral epitelial. E não mais, acredite, aceito a ideia de lhe ofertar como herança meus rabiscos que poderão um dia ser esquecidos, pelo tempo corroído, amarelado, destroçado.
ELEONOR
O que então, oras bolas, quer me dar?
POETA
Se até agora, doce imperatriz da minha alma, não percebeu, cabe a mim, voltar a adormecer.






