Crônicas e Poemas, Slide

Uma mulher escrevendo é um ato incontestável de transgressão.

14 de outubro de 2017

Câmera Moto Z. VSCO.

“Por caminhos tortos, viera a cair num destino de mulher, com a surpresa de nele caber como se o tivesse inventadoClarice Lispector

Após doze anos de estudos acadêmicos (Letras – Direito – História), percebi que não me ensinaram nada sobre representatividade feminina, a importância da visibilidade, necessidade de ocupar espaços significativos na sociedade, e quando detectar suas ausências, criá-los. Somente com muito estudo extracurricular, contrariando alguns ditos mestres do saber, constatei – de uma forma bastante dura e nada romântica – que uma mulher escrevendo é um ato incontestável de transgressão, o romper da permanência à sombra dos homens. Cada página preenchida que destoa de todos os moldes literários sexistas – partindo da concepção de princesas contemporâneas que necessitam de um homem para mostrar o caminho do sucesso e equilíbrio, a imagem da garota frágil e emocionalmente dependente, instável e confusa em detrimento da solteirona agressiva na casa dos trinta – é um ato de violência intelectual capaz de quebrar padrões injustos e seletivos. 

Em 1007, período Heian, Murasaki Shikibu escreveu “A História de Genji”, sendo considerado por muitos, o primeiro romance que se tem notícia escrito por uma mulher. 

A escrita feminina ainda encontra-se em processo de ocupar, em totalidade, o seu espaço de direito no estudo da Literatura, pois existe, ainda, uma pobre cultura, alimentada pelo patriarcado, que segrega e tenta deslegitimar as vozes literárias femininas. Não é raro perceber que algumas poucas escritoras são estudadas, analisadas de forma consciente, sem devaneios romantizados, sem perpassar pela ideia de uma suposta fragilidade – seja emocional ou física – ou, até mesmo, a necessidade de ser associada à “grandes e verdadeiros nomes da literatura”. E posso ir além ao criticar que tais figuras são repetitivas e não alcançam toda (ou boa parte) da pluralidade da literatura (dita feminina). 

(Para constatar a veracidade de minhas palavras, basta abrir um módulo de Literatura do Ensino Médio. Não há espaço para nada novo, e mesmo quando tentam “abrir” espaço para as vozes femininas, usam os mesmos nomes como se apenas aquelas escritoras fossem suficientes para representação. Tantos outros nomes silenciados por diversos outros fatores agravantes: racismo, classe social, qualidade literária (affs!)…)

Eu descobri essas mulheres imensas através de tantas outras tão imensas quanto elas. Aos poucos, entre linhas capazes de construir um paralelo – ficcional e o autobiográfico –, desvendei romances que partiam da premissa do sentimento puro, da agressividade inerente, da sensação de sufoco enquanto habito uma sociedade que tenta impedir meus gritos. E sobre gritos, meus caros, resta-me escrever, soltar palavrões, transformar meus fantasmas em personagens – dar nomes, levá-los ao mundo –, refletir sobre as dores que me causaram, as feridas abertas, os abusos; e, acima de tudo, incentivar outras vozes/escritas.    

 

“Uma mulher escrevendo é um ato incontestável de transgressão.”

Gosto de pensar que escrevo porque tantas outras vieram antes de mim, abriram fendas nesses espaços programados e abarrotados de senhores ditadores; mulheres que dedicaram suas vidas à escrita como forma de quebrar tabus, paradigmas. Mulheres que foram além das barreiras invisíveis e perpetuaram suas posições, ideais ao longo do tempo. Mulheres que incentivaram futuras mulheres – que hoje levam para as salas de aula (a partir da ideia básica do conhecimento-emancipação) seus romances, suas lutas, sua arte através de palavras. 

Deixo aqui meu mais sincero agradecimento a todas que lutaram antes de mim. Um lápis e uma folha em branco podem salvar vidas; eu, particularmente, salvei a minha. 

 

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1 Comment

  • Reply Fernanda Rodrigues 3 de novembro de 2017 at 10:58

    Oi, Faah!

    Sabe que essa crítica é algo que a gente observa muito lá no curso de pós-graduação que eu faço: a bibliografia é essencialmente masculina (4 mulheres: Clarice Lispector, Lya Luft, Elena Ferrante e Virgínia Woolf), sendo que a maior parte do corpo discente é composto por mulheres. A bibliografia feminina só cresceu na disciplina de literatura infanto-juvenil (que muita gente considera de menor importância, o que tbm é uma bobagem das grandes). Como feedback, criticamos ferozmente isso.

    Concordo com você que estamos lutando bravamente, sobretudo, por um espaço na academia. Há muitas mulheres escrevendo todo o tipo de literatura. A maior parte dos leitores são leitoras. Falta quebrar a barreira que está nas academias de Letras de um modo geral. O que me comove agora é o fato de que as mulheres estão perdendo o medo de se unirem e de lutarem por isso juntas. A FLIP deste ano foi um reflexo disso. Estamos dando passos pequenos, é certo, mas estamos caminhando. É isso que importa.

    Adoro quando você escreve esses textos tão simples e diretos e, ao mesmo tempo, tão profundos. Isso também me inspira e me dá forças para me posicionar e seguir em frente. 🙂

    Beijos carinhosos,

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