Crônicas e Poemas

Uma carta para o senhor.

8 de agosto de 2014

Este post faz parte do meme “Blogagem Coletiva”, produzido pelo RotaRoots

Eu deveria iniciar confessando que a sua falta me causa um desatino, uma sensação de incompletude carregada com o passar dos dias. Eu tenho meus momentos efêmeros de felicidade, e, por mais que a tristeza não esteja explícita e clara que é devido a sua ausência, pego-me acrescentando pesos demasiados de lágrimas que não entendo.

Você partiu e eu ainda choro. Disseram que minha dor é tão velha que acumulou alguns aniversários, e eu deveria me acostumar com a ausência, o lugar vazio, a perda de seu cheiro sobre as almofadas da sala ou nas poltronas. Eles jamais entenderam essa agonia que levo nos olhos, como se a minha dor causasse desconforto aos demais que não sentem na mesma intensidade. Eles me afastaram, painho, e não sinto saudade deles, mas sim de você.

Uma cratera estranha tem aumentado em proporções gradativas, bem aqui, em meu coração. Eu perdi a euforia sobre quase todas as coisas que me rodeiam, e cada dor desenhada na folha, leva consigo um traço de sua existência. Talvez, só talvez, eu escreva para alimentar a sua presença, não permitindo que sua memória se dissolva com o tempo – foi tudo o que sobrou.

Você me ensinou a amar romanticamente – era um apaixonado irreversível. Sempre espalhava suas cartas de amor destinadas à mainha. Que saudade eu sinto de sua letra – tentei escrever igual, quase consegui. Lembra-se que eu sonhava em me casar na igreja só para estar ao seu lado como na formatura da segunda série? Eu desisti. Perdeu o brilho e a razão, visto que você não estaria lá segurando a minha mão, orgulhoso e feliz.

Espero que não esteja chateado comigo, sei que me afastei do que restou da família, mas compreenda, eles não entendem as minhas tristezas, não aceitam que preciso correr atrás de sonhos. Você acreditava em cada sonho, já idoso, na casa dos 72 anos e ainda sonhava – quanta ousadia, meu pai! Quanta ousadia. Um menino preso em um corpo enrugado e doente.

Sobre seu rosto, desenho-o todos os dias em minha memória. Não me deixaram levar nenhuma foto sua quando saí de casa. Não tive esse direito. Restou-me apenas lembranças valiosas, sorrisos. Você ainda está nítido em mim. Aprendi que não se pode prender um sorriso em uma fotografia, tenho ao meu lado um coração que bate loucamente quando penso em você – o suficiente para jamais apagar seu rosto de mim. Destruí as imagens em que você se encontrava deitado sobre um leito de hospital, ou as sessões de hemodiálise que te cansavam tanto. Eu juro, eu apaguei. Restaram-me somente as risadas no quintal, você dançando sozinho entre as rosas brancas do nosso antigo jardim, sua expressão serena preocupado com as notícias no telejornal, e eu ali, sentada em um banquinho, com as mãos massageando suas pernas inchadas, sentindo seu cheirinho de proteção e total segurança.

Como eu sinto sua falta…

Sinto tanto a sua falta que não consigo escrevê-la. Ninguém jamais entenderia.

Eu não consegui ver o caixão ser tampado com pás e mais pás de areia – não, não. Eu evitei um colapso. Não era aquela imagem que eu precisava guardar. Sorte… Guardei apenas você, obrigada! Ainda lembro da Ave Maria sofrida que rezei ao lado do senhor um pouco antes de desaparecer na existência – um corpo pálido, sem aquele sorriso que eu amava, sem o calor de sua pele áspera e queimada. Você nunca deveria ter ido, não tão cedo, não tão rápido. Por que eu? Por que logo eu fui a que menos passei tempo com o senhor? Por que apenas dezessete anos? Eu queria trinta… Eu queria uma vida longa ao seu lado.

Hoje, estou beirando os trinta, e me desculpe pelas tatuagens e piercings… Ainda ouço Elvis Presley, Caruso e Júlio Iglesias, tudo em sua homenagem. Encontrei um bom homem, o senhor iria gostar dele, parece tanto com o senhor… Ele me ama muito, me respeita, e faz de tudo para me ver sorrir. Um dia, ele me disse que sentia muito por chegar atrasado em minha vida e não ter conhecido o senhor. Eu gosto de pensar que parte dessa adoração que alimento por Rafael é oriunda do senhor. Um dia teremos um filho, teremos sim. Se for menino, claro que irá se chamar José. Não me importo se é um nome fora de moda e pesado demais para uma criança. Eu quero que meu filho saiba que o avô dele foi um homem digno de ser lembrado. José… e todas as memórias ganham vida. Se for menina – não se preocupe – terá nome de inquieta, assim como o meu (só que mais bonito), tenho certeza que será uma sonhadora apaixonada e incorrigível como a mãe, como o vovô.

Eu tenho tanto para escrever que daria um romance. Não escrevo porque morrerei de desidratação, acredite, vou chorar a cada linha preenchida sobre o senhor. Quando sinto medo, peço sua proteção. Eu não acredito em céu e inferno, mas confio em sua energia, logo, puxo para mim tudo de bom que havia no senhor. Obrigada por, mesmo tão distante, ainda me proteger dos monstros que apareciam no escuro do quarto. Também preciso agradecer por ter contado histórias para mim, e mesmo quando não sabia pronunciar uma palavra, dizia que eu precisava aprender para um dia também conseguir ler. Você foi meu melhor professor e amigo. Meu complexo de Édipo invertido. Foi o senhor quem eu amei pela primeira vez na vida, responsável por provar que um amor verdadeiro dura, mesmo com a ausência, a distância…

A vista está um pouco embaçada – sinal que ainda choro pela injustiça cometida. Não foi justo o nosso adeus. Não foi.

E me perdoe por não visitar seu túmulo, simplesmente não consigo. Meus pés travam, meu coração fica apertado. Sofro holocaustos. É demais. É realmente demais. Saiba que mantenho o senhor vivo dentro de mim, e quando nasce um sorriso é porque, com certeza, foi abençoado pelo senhor.

Não sei como terminar a carta… Eu nunca aprendi a te dizer adeus.

Bença, painho…?

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3 Comments

  • Reply Vitória 8 de agosto de 2014 at 10:49

    Faah, meu bem mais lindo, eu simplesmente não tenho palavras pra comentar e… talvez minhas lágrimas aqui foi o máximo que eu pude oferecer. Te desejo mais e mais amor pra enfrentar a vida, sempre.

    • Faah Bastos
      Reply Faah Bastos 8 de agosto de 2014 at 11:01

      Ér… Posso ficar só no “obrigada”?
      Obrigada mesmo.

  • Reply Pearl 13 de agosto de 2014 at 10:50

    Impossível se acostumar… Lindas palavras!

    Beijos

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