Crônicas e Poemas

Essa nossa ausência de palavras

26 de outubro de 2012

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Você apaga as minhas melhores vitórias com simples tropeços, e eu acreditando que tudo era de mármore, não notando os sinais, as primeiras rachaduras. Eu acreditava que as tormentas eram apenas prelúdios de festas molhadas, a violência do vento balançando as madressilvas não era sinal de partida, era apenas paixão.

Eu estava enganada.

Um silêncio cortante fica entre a minha boca e a vontade de dizer que tudo ficará bem, mas sabemos, não ficará. Você desliza essa sua mão carregada de desculpas, pesada ao ponto de transportar para a minha pele os seus medos, a vontade de rasgar essa página complexa da nossa história. Mas não rasgamos, não é mesmo, meu amor? Continuamos calados, criando diálogos sem voz, trocando desculpas e perdões como duas vítimas de um holocausto, de lados opostos. Eu querendo um novo jardim e você lutando para que replantemos as orquídeas que o vento levou. E eu achando que eram apenas tempestades, passageiras, sem intensões, sem nós. Eram as nossas esperanças que o vento levava. Eu e você; você e eu, juntos de alguma forma sendo levados para longe, horizontes distantes, trilhas diferentes, sonhos ainda iguais? Hoje, não mais sabemos.

Eu queria ter segurado a sua mão enquanto me tocava, mergulhado na penumbra da ausência das palavras exatas para despertar o recomeço. Eu queria, meu amor, ser capaz de assumir a posição de salva-vidas – ou salva-amor. O que posso dizer? Você se apaixonou pelo grão de areia errado. Dentre tantos iguais, escolhera aquele que se alojou no canto de um dos seus olhos. Tolo… Poderia ter vivido mais, chorado mais, quem sabe até cantado melodias profundas sob jacarandás adormecidos. E você me escolheu, enquanto todos diziam não, seu coração – ainda não sei o motivo – berrava um sim vitorioso, cheio de orgulho por ter encontrado o único grão de areia que se achava uma estrela.

Estávamos errados? Bem provável. Fomos loucos? Completamente.

E agora, meu amor, o que faremos com essa ausência soturna de palavras?

Faremos sonetos em gestos? Venceremos a dor e voltaremos a tocar um ao outro como antes, como desejamos? É possível recomeçar dispensando as receitas de amor que todos usam? Ah, meu coração, meu pássaro azul… Somos crianças.

Eu apertarei os meus olhos, prometo. Farei uma prece para nós, e já que as palavras nos faltam, que troquemos olhares, meu amor. Troquemos olhares. Acredite, minhas lágrimas dizem mais do que o próprio silêncio.

 

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11 Comments

  • Reply Vitória Santos 26 de outubro de 2012 at 18:08

    Textos tão profundos assim me deixam sem palavras. E acho que nem precisa… Só sentir é o suficiente. Interessante é que eu estava lendo enquanto tocava aqui “Small Hands” do Keaton Henson… e isso deixou mais profundo ainda. >< Beijo, Faah.

    • Faah Bastos
      Reply Faah Bastos 27 de outubro de 2012 at 5:14

      Ah, eu precisava falar um tanto mais… Não sei. Digamos que é culpa da minha nova protagonista, ela anda sentindo a necessidade de gritar – ou sussurrar – ao mundo o que sente.
      Obrigada pelas palavras.

  • Reply Henrique iPod 26 de outubro de 2012 at 20:40

    Profundo e um pouco triste, mas muito lindo *-* .E a trilha sonora do site tem o poder de se encaixar perfeitamente nos textos gente, incrível. Amo seu site <3

    • Faah Bastos
      Reply Faah Bastos 27 de outubro de 2012 at 5:15

      Há uma beleza na tristeza. Eu sempre gostei disso.
      Obrigada!!

  • Reply Flávia de Melo 30 de outubro de 2012 at 20:28

    “O que posso dizer? Você se apaixonou pelo grão de areia errado. Dentre tantos iguais, escolhera aquele que se alojou no canto de um dos seus olhos. Tolo…” Posso destacar essa parte e dizer mais uma vez o quanto você consegue escrever como eu me sinto? Não sei, sempre que eu leio um texto seu eu esbarro em mim mesma, nem que seja somente numa frase. Posso também dizer que me identifiquei, em partes, com Helena? Em partes mínimas, mas me identifiquei. Muitas vezes ela pensa como eu, ou eu penso como ela, ou tanto faz. É muito bom conseguir se ver em escrita de outras pessoas que nem sequer sabem que você existe; elas descrevem o que você sente de um jeito que você nunca conseguiria.

    • Faah Bastos
      Reply Faah Bastos 30 de outubro de 2012 at 21:03

      Eu queria exatamente isso. Helena tem um pouco do mundo, mas ainda não sabe. Eu quero que a leitora seja a Helena do livro, exclua as partes que não se encaixam, mas absorva a dor dela e lute a cada página para se descobrir. Essa é a grande funcionalidade do romance e fico feliz em saber que, de alguma forma, está dando certo.

  • Reply Clara 22 de novembro de 2012 at 15:56

    Essa parte do texto diz tudo ”Poderia ter vivido mais, chorado mais, quem sabe até cantado melodias profundas sob jacarandás adormecidas.E você me escolheu, enquanto mais diziam não, seu coração – ainda não sei o motivo- berrava um sim vitorioso…”, sei lá, você conseguiu resumir em apenas algumas linhas o que muita gente sente. Ás vezes não podemos enganar o coração, ele é quem sabe de tudo, é a unica parte do nosso corpo que não temos controle. O que dizer sobre o seu texto? posso simplesmente dizer que amei!

  • Reply Layse Hana 8 de dezembro de 2012 at 12:35

    Que lindo! Nem sempre é preciso de palavras para dizermos o que sentimos!
    Amei o texto muito mesmo é lindo!
    xoxo

    • Faah Bastos
      Reply Faah Bastos 8 de dezembro de 2012 at 14:07

      Agradeço duplamente pelo elogio e comentário.

      Abraços.

  • Reply Natália Torres 30 de dezembro de 2012 at 15:48

    Um amor se auto- destruindo pela falta de comunicação, leio, e já vi isso em algum lugar, que nem sei se é perto o bastante pra ter a certeza que isso se encaixa para alguns corações magoados que eu conheço. ” Essa nossa ausência de palavras” amarga corações, destrói tudo que a de belo.
    Já ganhou uma fã! Parabéns!

    • Faah Bastos
      Reply Faah Bastos 31 de dezembro de 2012 at 11:30

      Acho que você não sabe o quanto é revigorante ler que alguém se tornou o meu fã, não devido ao estrelato, porque realmente desprezo isso, mas por saber que as minhas palavras foram capazes de cativar corações.
      Obrigada.

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