Crônicas e Poemas

Sobre Insatisfação, Cadeira de Judas e Macabéa.

27 de setembro de 2014

Algum tempo atrás, tive uma triste conversa com um indivíduo sobre a condição de existir nesse mundo. Dentre as teorias lançadas com fervor como argumento para as nossas diferentes visões sobre o assunto, eis que a criatura solta a declaração célebre “Você tem que entender que as pessoas gostam de reclamar, Faah. Eu vejo centenas de gente passando necessidade todos os dias, pessoas em fase terminal, e ninguém lá está reclamando de sistema político, machismo, preconceito ou nada disso. A realidade deles é a ÚNICA digna de reclamação”. É o clássico exemplo dos indivíduos que se deixam levar pela limitação do significado e abrangência da palavra infelicidade. Se não sofri nenhuma perda física, se meus móveis não foram levados por uma enchente, se não levei um tiro, não tenho o direito de me sentir infeliz? Devo, então, erguer as mãos e agradecer por não ter sofrido desgraças que os demais julgam merecedoras da infelicidade?

Segundo o ensaísta americano Thoreau, “grande parte dos homens vive uma vida de silencioso desespero”, e duvido que se referia unicamente as vítimas de tragédias, e sim pessoas comuns presas em sua rotina, obedientes cegos e oprimidos, indivíduos incapazes de quebrar o status quo, revolucionar suas vontades e tratá-las como prioridades. Manter-se no silêncio por medo, insegurança, temer ser incapaz de tomar as rédeas de sua vida, manter a insatisfação silenciada para não evidenciar a ordinariedade da própria vida.

Herdamos essa vida repetitiva, ocupados demais com os avanços tecnológicos de cada geração e obrigações necessárias para alcançar a felicidade vendida em outdoors, com famílias perfeitas entusiasmadas por contrair uma dívida que não podem pagar – tudo pela casa dos sonhos, onde a felicidade se esconde. Fomos programados a estudar, trabalhar, contribuir, para num dado momento, quando alcançarmos o sucesso e superarmos os medos, encontrarmos a vida plena e feliz. Na prática, vivemos assombrados pela distância entre o que somos hoje e a felicidade que queremos no amanhã. Se não obtemos a felicidade tão procurada, somos ridicularizados, menosprezados, diminuídos. E com esse pensamento, nos tornamos ocupantes da “Cadeira de Judas” – um simulacro de cadeira transformada em instrumento de tortura; de longe apenas uma cadeira para quem ver (uma felicidade perfeita vista de redes sociais, filtros do instagram e sorrisos programados), mas de perto, um indivíduo sentado sobre pregos e lâminas.

Mudar sua mediocridade está muito além da superação, de dar a volta por cima, superar barreiras. Somos diariamente programados a obedecer sem questionar, a culpar as perdas e derrotas com “foi Deus quem quis”/ “não se descontrole, não era pra acontecer”, ou julgados como preguiçosos, porque somos nosso próprio dono e temos o poder/direito de mudar a realidade. Visto de longe é muito simples, no entanto, ao analisarmos todo o processo educacional que esse ou aquele indivíduo teve, será que constataremos que o mesmo fora ensinado a ter o livre pensamento? O conhecimento era libertador ou opressor? O pensamento e o senso crítico foram praticados e respeitados? Foram educados para mudar sua própria realidade ou obedecer a continuidade de uma sociedade responsável por manter as classes muito bem divididas?

Essa sensação de vivermos uma vida falsa, fabricada, construída por terceiros está em todo o lugar, principalmente na Literatura. As evidências estão por toda a parte, partindo de pessoas que resolveram gritar ao mundo seu desespero, saíram da cápsula de completo silêncio e assumiram que são indivíduos infelizes, comprando e sustentando uma felicidade longe do que realmente o faz feliz. Não sou muito fã de Clarice Lispector (e não preciso citar os motivos agora), mas devo admitir que “A Hora da Estrela”, exemplifica com maestria a ferida aberta. Macabéa é uma maldita, presa em uma vida de horizontes limitados, sonhos incompletos e frágeis. Encontra o ápice na morte, na tentativa de vomitar uma estrela de mil pontas – a expansão de seus horizontes, o além do convencional. Durante todo o livro, Lispector mapeia a frustração, a sensação de sufoco, a inquietação de sobreviver um dia de cada vez sem expelir o ódio, a fúria, a raiva de existir sem protagonizar suas escolhas. Ser apenas para servir, manter, repetir. Há milhões de Macabéas espalhadas pelo mundo, ocupam ambos os sexos. Estão em toda a parte: nas filas do banco com os olhares perdidos para o piso quadriculado, no ponto de ônibus, nas salas de aula, nas linhas de produção, nas buzinas enfurecidas, nas brigas de rua pelos motivos errados… É esse sufocamento que entope as ruas, sopra poluição nas nuvens, esmaga o espaço nas calçadas, se manifesta através do barulho dos carros de som – protagonizando o próprio descontentamento.

E havia nela um desafio que se resumia em ‘ninguém manda em mim’.”  – A Hora da Estrela, de Clarice Lispector.

Não lutamos, nos silenciamos, escondemos, fingimos. Estamos longe de debater, lutar, resistir, chutar o pé da estrutura e apenas vê-la cair. Querer o que todos querem e optar pelo mesmo caminho é mais fácil. Ser convencional pode ser uma escolha, como também uma maldição, uma escolha feita através dos mecanismos impostos por aqueles que menosprezam a liberdade do pensamento, do ser crítico dentro de cada um.

Fingimos gostar porque desgostar pode causar transtornos.  

Lutar para escapar dessa imensa bolha de silêncio já torna a vida menos medíocre, não torna? Essa insatisfação, em algumas pessoas – não permanece calada –, explode, ultrapassa as barreiras do medo e ganha o mundo, serve como combustível para as manifestações, os grupos sociais que buscam o equilíbrio entre as classes, raças e sexos. A tal insatisfação ferve o sangue e movimenta as discussões nas rodas de amigos, nos debates escolares, nas tentativas, no feminismo… Insatisfeitos barulhentos que depredam o machismo, a corrupção (tanto financeira quanto de valores), as falácias sociais. Ser insatisfeito com sua realidade é a base para a mudança, e nada se conquista sem luta, sem as tentativas, porque enquanto usarmos o medo como égide, ainda seremos vítimas – eternas vítimas – e jamais conquistadores, donos do pensar, do ser, do querer, do simplesmente existir.

É preciso fazer BARULHO!

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