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Sobre envelhecer e suas lições.

25 de abril de 2016

Envelhecer tem lá suas vantagens, uma delas – e talvez a mais importante – é o acúmulo de ensinamentos e lições que passamos a carregar diariamente. Vencer os anos e somá-los, ao meu ver, tornou-se um jogo de caça-memórias, conquistas e novas formas de ver o mundo.

E ao somar idade, peguei-me refletindo sobre a minha vida – escolhas, rumos, as energias – e o quanto meu interior estava desgastado e frágil. Era como uma casa deteriorada pelo tempo, o descaso, as aflições, a correria da vida, o passar das horas; sem vizinhos ou interessados em fazer moradia por muito tempo. Salvo, claro, os corajosos que se hospedaram em mim enquanto ainda havia um teto. Foram períodos carregados de energias ruins e pessoas desnecessárias. Eu era consumida pela fragilidade de todas as coisas que me rodeavam, tanto as relações, os sentimentos, as certezas.

Distingue, então, duas espécies de fragilidade. Uma delas, que valoriza até determinado ponto, deriva de um medo de alimentar as opiniões erradas sobre mim, como se só existisse paz se todos me vissem como realmente sou. Já a outra, mantida quase em total segredo, é orgânica, original, a única – aliás – que me obriga a repensar na relação que encontro com meu “eu”, reavaliar as negligências, os anos somando cansaços, na negligência com o corpo, saúde, mente… Para que todo o processo ocorresse fora necessário a intervenção daquele breve momento em que me olhei no espelho num momento de raiva, e não mais me achei. Ali, exatamente ali, diante do reflexo, desconhecia aquela mulher de rosto ruborizado, têmporas franzidas, olhos dilatados. Eu era tudo, menos “eu”.

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Mesmo beirando os trinta, ainda tenho muito a aprender, configurar minha realidade e organizar minha casa interior. Não adianta remoer as mágoas, berrar ao mundo o que considero verdade, o outro só compreenderá aquilo que lhe convém. Ao resto? Nada. Eu estava errada quando forçava minha opinião diante de algo, era preciso entender que cada um parte de sua própria natureza, verdade, história, logo, sou mais uma no mundo querendo ganhar um pedaço. Se estou tão disposta a fazer com que os demais me amem, me respeitem, por que não pratico amor por mim, respeito por mim? Com as vitórias, tudo se torna natural; geração semeando geração.

Aos poucos, seguro os problemas e as pessoas desagradáveis por breves momentos – os lapido, ministro doses de equilíbrio e deixo-os ir. Não levo nada de ruim para dentro de minha casa, no leito do meu refúgio, pois aprendi a deixar do lado de fora tudo aquilo que não soma verdades, acumula pedaços, coleciona mentiras e fracassos.

A dor de uma queda não é mais a única forma eficiente de aprender. A dor não é mais minha educação e fé, tornou-se algo resgatável, usável, mas jamais fixo. É passageiro; emprestado; visitante. Deixei a crença de que só existe verdade, sobretudo, naquilo que sofre, nas feridas abertas e das decepções enumeradas. Não há vida na dor, na mágoa, no rancor, nos pesos do passado.

É no envelhecer que descobri que a felicidade é moldada, mesmo que não a busque, pois tenho em mim todos os motivos do mundo para sorrir. A felicidade, bem como os seus satélites, encontra-se nos detalhes, no ser livre; é um ato de alforria. Passo a acreditar que sou como Demiurgo criando minha própria parcela de ser feliz como fruto de minhas vontades, na realização como indivíduo inteiro e único.

Para mim, envelhecer é deliberadamente um ato para sábios e corajosos.

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