Crônicas

Sobre demônios, minha literatura e esvaziamentos.

1 de setembro de 2014

Olívia Maia, em seu blog, abriu um questionamento importantíssimo que deixou-me um tanto desequilibrada. Encarei seu desafio e resolvi escrever.

Como afirma Vargas Llosa: “El por qué escribe un novelista está visceralmente mezclado com el sobre qué escribe: los demonios de su vida son los temas de su obra.” Hay un poema hindú, el Vijñana Bhairava, que le gustava mucho a Cortázar, y que en cierta forma le explica: “En el momento en que se perciben dos cosas, tomando conciencia del intervalo entre ellas, hay que hincarse en ese intervalo. Si se eliminan simultáneamente las dos cosas, entonces, en ese intervalo, resplandece la realidad.”

Ignacio Solares, Imagen de Julio Cortázar

pergunta aos amigos escritores: quais são os demônios de sua vida? como esses demônios se infiltram na sua obra?

(pergunta a sério. proponho post-resposta nos blogs respectivos. alguém encara?)

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Não faz muito tempo, confessei que o processo de escrita me proporciona algum poder quase sobrenatural diante todas as coisas e pessoas deste mundo. Pensando melhor sobre esse aspecto, desvendo que tal poder garante preciosas revelações dos demônios que permeiam minha escrita e passado. Sem querer escrever clichês, admito que meu processo de criação literária é lento e absurdamente íntimo. Eu preciso identificar meus demônios, achar uma justificativa para sua existência e somente e só, conseguir transforma-lo em uma espécie de personagem ou trama – a razão de escrever um livro.

Recentemente, Rodrigo Gurgel (ensaísta, crítico literário e escritor) disse em um de seus tweets: “Os escritores precisam abandonar as autobiografias disfarçadas, em que ficam se flagelando, desnudando seus complexos em praça pública”; ora, se as palavras que formam um romance nascem de mim, como evitar ter uma fileira de “eus” prontos para distribuir sensações, sentimentos e conflitos? Como posso querer vender minha literatura para o mundo se nela não existir meu EU? No entanto, é complicado discordar publicamente de alguém que está anos-luz a frente; resta-me apenas lançar um olhar preocupado para o meu material literário (espaços escritos e pedaços de mim); folhas e mais folhas desenhadas com as criaturas que apavoram a minha existência. Eu cresci lutando, vencendo, sendo aliada ou sufocada por todos os demônios que afligem os passos que ouso tomar.

(Resolvi abrir um parênteses para deixar claro algo que, devido ao meu erro, talvez não tenha ficado muito claro. Eu não quero contradizer Gurgel, não faço uma crítica a ele. A verdade, não consigo abandonar meus disfarces autobiográficos porque sou isso, quero dizer, minha escrita é exatamente essa. Logo, meu conflito é não abandonar o que é altamente necessário abandonar. E por concordar com Gurgel, lanço um olhar crítico sobre tudo o que escrevo.)

Alguns meses atrás, um de meus alunos perguntou se parte das dores explícitas em meu primeiro romance (e não sinto muito orgulho dele) foram vividas por mim. Respondi “metade sou eu e a outra o que eu queria ter sido”. Passou alguns segundos de total silêncio até que ele, segurando o livro entre os dedos, murmurou que “ninguém deveria sofrer assim”. Naquele momento percebi que minha escrita era melancólica e não teria como muda-la, pois no instante que negasse sua essência para ser qualquer outra, estaria mentindo para mim na única ocasião que deixo as máscaras de lado e mostro quem sou.

Escrever me revela.

Devo confessar que sou uma escritora bruta, crua. Digamos que uma favelada querendo participar de um banquete. Eu não fui lapidada pelos grandes nomes da literatura, tampouco conheci mestres dispostos a compartilhar um pouco de conhecimento. Eu tento aprender na paulada, e movida por essa ousadia que me faz continuar andando quando todos me mandam parar, escrevo. Mas tenho demônios, fantasmas, criaturas da noite vagando em minha mente. Sou assombrada pela existência de um passado, as dores acumuladas e tanto mais de mim que não ouso dizer, e no entanto insisto em escrever porque através da palavra muda ganho o mundo e conheço a mim mesma. Dou aos meus personagens parte de quem sou, testo a vida através da literatura. Eu faço experimentos sentimentais.

Escrevo sobre mim e continuarei escrevendo. A cada página escrita esvazio-me, abro os potes de passado e permito ser conduzida pelas memórias. Sinto-me oca.

Meus romances, crônicas, pensamentos avulsos, trechos ­– uma amálgama de mim, a soma de tantas vidas que vivi ou deixei de viver. Às vezes, essas criaturas pulsam em meu interior, dispostas a conquistar vontade própria, o que explicaria meus longos períodos de total silêncio. Não insisto em escrever diariamente, tenho medo de produzir qualquer coisa sobre o mundo e não sobre mim. Eu sei, evidentemente sou egoísta, mas posso ser perdoada, a escrita é a única riqueza que não preciso – obrigatoriamente – compartilhar com o mundo, o faço por boa vontade.

É bem provável que no fim de tudo, expulsando meus demônios, eu apenas esteja vagando no mundo tentando encontrar sentido na realidade absurda apresentada pela vida – ou até bem mais simples que isso. Quando escrevo eu posso tudo, quando falo me limito, é quase uma regra babaca que segue delimitando espaços e ações de quem sou. Entretanto, nem tudo está no papel, não haveria papel suficiente para os meus lamentos.

Por um tempo, eu percebi que havia uma linha invisível de semelhança entre trechos de minha vida com fatos ficcionais – são pontos que diferem sutilidade de mero exibicionismo.

Costumo dizer que ao terminar um livro sinto uma cratera corroendo as paredes de meu interior. Estou em ruínas. As palavras lançadas no documento em branco refletem a quebra das estruturas que me mantém segura, firme ao longo das batalhas. Eu passo a desvendar minhas tragédias na posição de narradora, crio um pequeno inventário e golpeio minha alma com todas as verdades (ou por medo, trauma ou esquecimento) desconhecidas até então. Se Gurgel estiver realmente certo, jamais farei parte dessa nova safra de escritores que todos esperam, porque não sei escrever sobre aquilo que desconheço. Não sou inventiva, nem inventada. Eu me criei dentro de uma massa estranha de mágoas e ressentimentos, até que tudo começou a mudar. Com o tempo, as palavras reunidas através de minha maiêutica literária se alinharam, apresentando uma inexplicável dimensão, sou capaz de penetrar num outro mundo sem tempo, espaço, nem os outros. Através do meu poder sobrenatural, mortes acontecem, pessoas nascem, amores se findam, traições surgem… E posso usar o amor como única fonte de resolução para todas as quedas da vida. Sim, sou uma romântica melancólica que mesmo com as desgraças acionadas pelos fantasmas que me rodeiam, dedico minha esperança ao amor – porque parte de mim é exatamente isso.

Sei que não estou isenta de cair no egoísmo literário, afogar antes mesmo de começar a nadar. Tenho plena consciência que essa busca pela realidade pode me causar danos irreparáveis; um dia, quem sabe, eu perceba que sou cruelmente arrogante ou cínica, e que toda a minha escrita acenda de uma angústia monótona, densa e cancerígena. Uns profetizarão que meus demônios irão se calar, não terei mais sobre o que escrever, logo, fica o questionamento: o que farei depois?

Bem, eu serei romance, entende? Romance.

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6 Comments

  • Reply Vitória 1 de setembro de 2014 at 13:34

    “Sem querer escrever clichês, admito que meu processo de criação literária é lento e absurdamente íntimo. Eu preciso identificar meus demônios, achar uma justificativa para sua existência e somente e só, conseguir transformá-lo em uma espécie de personagem ou trama.”

    Faah, espero que nunca deixe o seu Eu se afastar das tuas palavras. É isto que te torna tão singular no meio desse amontoado de escritores da atualidade que são tão semelhantes uns aos outros.

    • Faah Bastos
      Reply Faah Bastos 5 de setembro de 2014 at 12:20

      A minha literatura é quase como um processo de amadurecimento, então, enquanto eu crescer, escreverei.

      Obrigada, Vitória, como sempre.

  • Reply Sofia Duarte 2 de setembro de 2014 at 20:17

    Bem… Não que eu me considere ‘escritora’, talvez no mínimo amadora. Mas, a realidade é que também me estilhaço pelos meus ‘eus’ disfarçados e loucuras encostadas nos meus sentires. Endoideço a cada dedilhar, e sinto uma certa empatia com o que escreveste.

    A realidade é que, mesmo não sendo tu mais do que uma ‘favela’ eu te gosto de ler – apesar de ainda não ter uma obra tua. Crime! – e jamais desejaria que perdesses tudo aquilo que te faz tão especial…

    Então que sejas Romance, sempre!

    Beijo,
    SD

  • Reply Iara 4 de setembro de 2014 at 16:40

    Adorei o post, absolutamente perfeito.

    • Faah Bastos
      Reply Faah Bastos 5 de setembro de 2014 at 12:12

      Muito obrigada, Iara! Fico feliz por ter gostado.

      Abraços!

  • Reply Garimpo literário #1 | Livros só mudam pessoas 17 de outubro de 2014 at 22:12

    […] Sobre demônios, minha literatura e esvaziamentos. – Faah Bastos Partindo de uma citação de Vargas Llosa – que aparece em um trecho de Julio Cortázar -, a escritora Faah Bastos faz uma análise de como tudo o que viveu afeta, aparece e interfere em sua obra. Há um embasamento e uma sinceridade tão profundas no texto, o que faz com que, nós, leitores passemos a entender melhor o universo complexo que é o processo de escrita. […]

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