Crônicas e Poemas, Slide, Sobre Amores & Partidas

Sobre a tal coragem de amar.

17 de julho de 2016

Crônica retirada do livro Sobre Amores & Partidas.

Eu tenho períodos de total descaso com minhas redes sociais, pouco tempo depois me sinto absurdamente motivada de dar o ar da graça de minha existência para todos os queridinhos amigos “virtuais”. E, foi num desses surtos de exibicionismo que, sem querer, tropecei este meme:

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A princípio, fiquei um tanto envergonhada, afinal, não me encaixo nesse tipo de pessoa que ama uma louca e extravagante manifestação de amor, já que eu estaria no grupo de “gente fria pra mim, é gente morta”. Segundos depois, quando realmente parei para pensar no quão é absurdo esses dizeres, compreendi que não sou uma pessoa fria. Bem, até posso ser diante dos olhos de quem não me conhece (mas aí já nem tem relevância, não é mesmo?), porém, dentro de mim há uma imensidão de sentimentos lindos que compartilho com aqueles que julgo merecer (lê-se: fazem por merecer).

Não! Eu não gosto de textão (sim, mas já escrevi alguns por amor), raramente posto uma foto com meu marido, não gosto quando ligam para mim, enchem de mensagens no whatsapp, nem quero ninguém gritando na porta de minha casa. Eu gosto do silêncio, da troca de olhares, do toque amigo, da sensação de compartilhar um mundo sem precisar dizer uma única palavra. E, cá entre nós, o que há de errado?

“Eu gosto do silêncio, da troca de olhares, do toque amigo, da sensação de compartilhar um mundo sem precisar dizer uma única palavra.”

Vivemos tempos difíceis, meus caros. Tempos em que estão por aí distribuindo tutorial autoritário sobre como amar, e pior: sobre o que é amor. Se amo igual, estou dentro; se tenho minha forma particular de amar, estou fora. Quando foi exatamente que passamos a concordar com toda essa baboseira?

Com um pouco de criatividade, alguns sertanejos românticos e boas doses de estrelismo, fazer um textão sentimental é bem fácil. Mandar um áudio encorpado e meio que tropeçando nas palavras é ainda mais fácil. Mandar indiretas para aquele tal amor que resolveu tocar o “foda-se” é ainda mais fácil. Mas amar não é nada disso, não é mesmo? Ou melhor, não é SÓ isso. Amar é ter coragem (ponto aqui). Amar é ir além mesmo quando você se sente cansado ou desmotivado, afinal, é através do amor que você abastecerá sua carga de energia.

“Amar é ter coragem (ponto aqui). Amar é ir além mesmo quando você se sente cansado ou desmotivado (…)”

Veja bem, não estou aqui tomando o lugar de quem antes me oprimiu – indiretamente – com o meme. Longe de mim, queridos. Estou mesmo é abrindo o leque de possibilidades, de novas formas de ver o amor em sua essência – sem friluras, rodeios, joguinhos e indiretas. Eu gosto do amor natural, o mesmo amor que me acorda com um beijo, e, sem escovar os dentes, diz “eu amo você” – com todas as letras, sem tropeçar, sem falhar, sem olhar para o lado; o amor em sua versão mais simplista e especial, quando rompe a porta de casa dizendo “Vivida, eu cheguei. Que saudade”!; o amor que me beija na testa na frente das demais pessoas, não por sinal de possessividade, mas numa tradução física do “eu estou aqui por você”; o amor sem birras, que não vai dormir brigado, nem se encolhe nas paranoias e suposições – o sincero!

“Eu gosto do amor natural(…)”

Eu não sou fria só porque amo para dentro e compartilho o que sinto bem baixinho. Não há nenhum manual prático sobre como amar, e acaso existisse, eu seria uma dessas rebeldes com militância própria incapaz de aceitar que o outro diga como devo ou não sentir. Eu sou direta, seleta, reflexiva, mas nunca fria. Jamais. Há dentro de mim uma fogueira poética alimentada por detalhes românticos que rodopiam minha vida. Eu sou portadora de um amor livre que, se bem eu quiser, pode ser escândalo ou silêncio sem avisos prévios, sem receio do achismo, dos julgamentos.

Eu respeito a sua forma de amar exacerbado, que transborda; mas não queira dizer que a minha forma (ou muitas delas) de amar não tem coragem. Eu vivo esbanjando amor baixinho, em sussurros, em assovios. Eu amo-passarinho, e nem por isso deixou de amor-ninho.

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