Crônicas e Poemas, Slide

Reflexões sobre ser professor.

14 de outubro de 2017

“(…) eu buscava não ser apenas um professor-repetidor, mas construtora, crítica, mediadora.”

Em meados de 2009, terminei a faculdade de Letras com a certeza que mudaria o mundo através da Educação. Levei seis anos para compreender que o mundo não precisava ser mudado e que o ato de mudar as pessoas não deveria ser arbitrário, pois se tornaria mera violência. Era preciso, antes de tudo, entender premissas básicas – negligenciadas ao longo de quatro anos acadêmicos – como: “o que é educação?”, “o que é mundo?”, “até que ponto posso educar o outro sem ofender sua liberdade?”.

Eu tinha estudado grandes nomes da Filosofia da Educação, gabaritado o maior número de provas, mas o que eu realmente entendia sobre os instrumentos educacionais? Levou um bom tempo e um punhado expressivo de dedicação para compreender os tipos de senso, as variações do saber, a importância da inteligência emocional no processo educacional, os limites do conhecimento-regulação e conhecimento-emancipatório, entre outros. Foi necessário, antes de voltar a entrar em uma sala de aula, questionar o que eu pretendia largando a advocacia e me concentrando novamente no papel de professora. Percebi que, após longas reflexões, eu buscava não ser apenas um professor-repetidor, mas construtora, crítica, mediadora.

Um dos momentos mais incríveis em minha carreira. A imagem acima é um resumo de uma atividade reflexiva que fiz com meus alunos do Segundo Ano do Colégio D. Pedro II. Ao centro, estou representando o saber (acessível); ao redor, meus alunos como autônomos na busca pelo conhecimento – juntos, pois através da união dos sujeitos é possível alcançar a plenitude do saber. 

A priori, modifiquei as barreiras do conteúdo didático, e busquei inserir novas fronteiras para o conhecimento – eram formulações com potencial significativo para pensar os conteúdos escolares à luz de outros prismas. Todavia, para conquistar esse afastamento do que vem predominando historicamente, era preciso pensar em dois fatores axios: (i) pluralismo e sua importância no âmbito educacional, e (ii) identificar que a modernidade cientificista negligencia tantas formas de conhecimento e indispensabilidade de revalorizá-las. Não é possível mediar a busca pelo conhecimento quando se omite as individualidades dos sujeitos, suas identidades, pois a aquisição do saber e os instrumentos necessários para tal, serão diferentes de pessoa para pessoa. Não se produz emancipação do indivíduo e suas revoluções sem propor o pluralismo e suas esferas. Faz-se necessário entender cada aluno como desbravador, não repetidor. Eles possuem raízes diferentes, realidades distintas mesmo fazendo parte de uma única sociedade. Meu grande desafio não se resumia em passar conteúdos de forma clara, mas preocupar-me em estudar meios de inserir de forma igualitária e justa os alunos no processo de aprendizagem, não apenas em um ato

“Não é possível mediar a busca pelo conhecimento quando se omite as individualidades dos sujeitos, suas identidades, pois a aquisição do saber e os instrumentos necessários para tal, serão diferentes de pessoa para pessoa.” 

Hoje, ao longo de dez anos em sala de aula, entendi que:

  • a escola é um espaço realmente privilegiado de interação social, o meio adequado que favorece a construção da identidade do indivíduo; por isso, carrega possibilidades incontestáveis de contribuição emancipatória e acréscimo de multiplicação dos campos educacionais. Ou seja, é a quebra da hegemonia das diretrizes do aprendizado doutrinador em detrimento das subjetividades democráticas transformadoras capazes de proporcionar visibilidades das realidades já existentes – é trazer o real para dentro das salas de aula e intertextualizar com os conteúdos didáticos, dessa forma, o aluno torna-se construtor no projeto educativo emancipatório.
  • o professor precisa compreender as dimensões do significado do que é hierarquia em sala de aula. Enquanto houver um misticismo romântico, além da errônea classificação do docente como o único detentor do saber em sala,  ainda será possível constatar rupturas abissais no relacionamento professor e aluno. Talvez, nesse ponto, o respeito se perca. Se eu desmereço a individualidade e bagagem intelectual do meu aluno, como posso ser respeitada como professora? É praticamente um ato de violência. 

Câmera Moto Z. VSCO.

Ser professora tornou-me mais humana e consciente – tanto do meu papel dentro da sociedade, como projetar o equilíbrio entre as minhas conjecturas pessoais e minha obrigação com a Educação. E é sobre humanização, esse tornar o ser mais sociável, que venho buscando em meu trabalho diário de possibilitar o acesso igualitário ao saber, essa tarefa árdua de criar e investigar novos instrumentos que alcancem uma gama – cada vez maior – de indivíduos e favoreçam a proporcionalidade entre subjetivismo e identidade social. É o sentido claro de uma pedagogia humanizadora, segundo Paulo Freire, percebendo os processos educativos enquanto ação cultural, e inserir a autonomia como premissa de uma práxis educativa que vise a libertação e não a opressão e manutenção do status quo.  

Nesse Dia do Professor, comemoro a realização profissional de não apenas fazer parte dos espaços do saber – ambientes de inclusão educativa –, mas também evidenciar o potencial de escolha associado ao debate entre assimilar as formalidades das práticas educativas escolares, na medida da construção das identidades individuais e sociais, sem negligenciar as raízes de cada sujeito.

A resposta é positiva, quase sempre. Estou no caminho certo, mas ainda há muito a ser feito. Educar é uma jornada diária, uma luta constante. Então não me julguem se não pareço muito romântica ao comemorar o Dia do Professor, pois não envolve apenas “amor” pela prática educacional; sim, a Educação é arte, mas também ciência – e, como toda e qualquer ciência, evolui, rompe paradigmas arcaicos e amplia a pluralidade do conhecimento, seus instrumentos e as autonomias subjetivas e práticas sociais. 

Eu parabenizo os professores que não alimentam a inércia e agradeço aos meus alunos que me dão a chance de pincelar revoluções e possibilidades.

Feliz Dia do Professor.  

 

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3 Comments

  • Reply Irana Pacheco 14 de outubro de 2017 at 19:10

    Adorável, profundo e crítico texto sobre o fazer educação. Sala de aula é um espaço dinâmico e ser professor é algo que exige coragem, verdade é humildade. Os saberes estão em nós, nos nossos alunos, no mundo e na vida. Parabéns a nós apesar de todas as lutas. E desejo que nunca perca seu brilho em ser docente.

  • Reply Fernanda Rodrigues 3 de novembro de 2017 at 11:09

    Faah, eu ando numa crise tão profunda com o meu eu-professor, que ler o seu texto me deixou mais reflexiva ainda. É muito ruim quando a nossa ideologia não vai mais ao encontro do que a instituição prevê. Eu ando meio de bode com isso, sabe? Mas, ao mesmo tempo, como quase todos os outros colegas professores, preciso pagar as contas todas.

    Espero que seja só uma fase. Ver a sua prática é algo que me inspira muito para não desistir. ♥ Obrigada por transformar tantas vidas, incluindo a minha 🙂

  • Reply Felipe Lange 6 de novembro de 2017 at 8:41

    Oi Faah, tudo bem?
    Adorei o seu post, infelizmente hoje o professor é uma das profissões menos valorizadas neh!? INFELIZMENTE!
    Parabéns por sua dedicação!
    Blog Entrelinhas

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