Crônicas e Poemas

Prazer, sou Professora!

11 de abril de 2014

Alguns meses atrás, fui arduamente criticada por não querer seguir a carreira jurídica (montar um escritório de advocacia e correr atrás da justiça) e me dedicar a vida de educadora, como se eu ofendesse a “grande oportunidade” de defender a justiça, buscar a verdade e trazê-la à luz dos justos. Bem, eu optei por trabalhar em prol de criar pessoas justas para que elas, através do conhecimento adquirido ao longo dos anos estudantis, encontrem a sua própria verdade e façam bom uso da mesma. Se eu fiz uma escolha errada e nem tão lucrativa assim, não é problema de terceiros, e sim uma escolha pessoal que me representa. Se você não tem o mínimo de amor pelo que faz, deixa de ser paixão para ser somente e só, trabalho – e eu não acredito que o trabalho sairá excelente sem aquela pitada ardente de uma bela paixão. Um dos professores do meu marido, da faculdade, disse que “quando você acordar pela manhã e não sentir vontade de ir trabalhar, repense sua carreira”. Concordo plenamente! Se em um determinado momento surge o tal questionamento se devo ou não devo ir trabalhar, se toda uma camada de desmotivação se agarra ao seu corpo, bem, meu caro amigo, acredito que precisa reavaliar o que anda fazendo em seu trabalho, se realmente faz o que gosta.

1619561_525021270929173_1143111017_nA recompensa salarial (uma boa parte preocupa-se apenas com isso, afinal, vivemos em uma sociedade puramente capitalista – e não estou criticando!) é o combustível que mantém funcionando todo o maquinário laboral. E claro, eu também tenho as minhas contas a pagar, e quero mantê-las em dia. Todavia, não quero me prender em um local de trabalho sem a mínima possibilidade de desfrutar da minha individualidade, sem conseguir mudar um pouco a realidade, ou até mesmo, apresentar novas possibilidades. Quando finalmente decidi que iria me lançar ao voo educativo, óbvio que tive medo. Claro que me questionei milhares de vezes se estava optando pelo certo, porque mesmo adultos, nós temos medos, e cair em queda livre é assustador. No entanto, se há amor pelo que fazemos, se dedicamos nossa energia para criar um ambiente de trabalho adequado, a produtividade aumenta, os talentos se enfileiram para desfilar pelos dias… Logo, você cresce, e claro que estamos também enfatizando o processo de crescimento salarial. Eu sei, não é uma matemática exata, é uma conclusão, mas nada impede que se torne verdade, como em meu caso. Eu leciono todos os dias da semana, dois turnos, tenho centenas de alunos de diferentes: classes sociais, realidades e idades – um emaranhado multifacetado que propicia o encontro da diversidade. É lindo!

Eu tenho a oportunidade de burlar o ensino mecanicista responsável por produzir apertadores de parafusos, seres obedientes prontos para somente responder “sim, senhor”. Eu levo para a minha sala de aula, uma orbe de possibilidades, caminhos e escolhas; enfatizo a necessidade de não vivermos saltando de um paradigma a outro sem se importar com a individualidade, as diferenças, as experiências de vida díspares de cada indivíduo – ser atuante ou não. Através da palavra, apresento universos possíveis e imaginários, confronto verdades fabricadas, e permito que cada aluno faça sua própria história, crie convicções e se desprenda da obediência cega, do aceitar sem questionar… Eu facilito o despertar de talentos, e acredito neles! Essa é a minha visão do papel fundamental do professor, resume-se em permitir!

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Obviamente, ao longo da jornada, alguns desistem. Recentemente, senti algumas dessas desistências, e nosso trabalho também tem um limite, pois para permitir, antes de tudo, é preciso se permitir, e nenhum educador pode interferir na escolha de seus alunos, se eles se recusam porque acham mais fácil obedecer, repetir, copiar, que assim seja. Nosso trabalho, nestes casos, é alimentar suas mentes com o conhecimento mecânico para que, mesmo obedientes, conquistem seus desejos. Além, claro, de mostrar os perigos do conformismo, como também do comodismo. Nossa sociedade sofre dessa doença tão sacana, o conformismo: “Está bom assim”, “Pra que isso, professora?”, “Desde quando eu preciso ler esse livro?”…

Nem tudo são flores. Também me estresso puramente quando outros professores lançam olhares estranhos, adversos para os meus métodos, ou alegam que a paixão que desperto em meus alunos é oriunda da minha (possível) capacidade em distribuir pontos. Ora, vejam só, eu sou considerada (palavras dos próprios alunos) uma das professoras que mais cobra, briga, puxa para dentro da sala, reclama, insiste…, assim, seria um tanto contraditório eu ter facilidade em distribuir algo que não tenho: pontos!

1907571_544920395605927_636856027_nMeu grande diferencial é acreditar em meus alunos e insistir para que não desistam de mostrar ao mundo seus talentos particulares. Posso usar como exemplo, um particular aluno do Nono Ano, em uma das instituições em que trabalho; inicialmente, ele nem aparecia na sala, e quando o fazia, não produzia absolutamente nada. Eu poderia ter reclamado, ameaçado, desistido, ter aceitado o seu primeiro teste em branco… Mas não cometeria com ele o erro da desistência. Insisti, corri atrás, motivei-o. Resultado? Tirou uma das médias mais altas da sala. Eu vi o orgulho florescendo em seus olhos, e o agradecimento não por ter somado uma nota para seu esforço, mas por ter acreditado que ele era capaz.

É preciso paciência, cuidado e ser muito feliz para se tornar um educador que facilite o processo da busca pelo conhecimento. Um professor verdadeiro (como muitos que eu tive ao longo da minha vida estudantil) não produz respostas, produz caminhos que darão em possíveis respostas; irá trabalhar com a sala e individualmente com cada aluno, compreendendo que o grupo é importante, porém repousa nas diferenças soluções para problemas. Pensar como um todo é de suma importância, porque somos seres sociais, no entanto, se olvidar que este grupo – a sociedade – é formada por indivíduos diferentes, é como anular a parte essencial capaz de mudar a realidade, criar novas rotas, favorecer o surgimento de novas respostas.

Educar me proporciona tal prazer, e nenhum outro emprego seria capaz de abarrotar meu coração de memórias, minhas gavetas de cartas de alunos, minha geladeira de chocolate (fofos!), e impulsionar meus dedos na escrita que liberta, quebrando os grilhões de meros seres que apenas vivem, mas não inovam.

Prazer, sou Professora!

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2 Comments

  • Reply Vitória. 12 de abril de 2014 at 22:53

    OWN, MEU PAI, QUE COISA LINDA!
    Primeiro, eu preciso dizer que me enchi de orgulho de ler algo tão lindo! Tua paixão por isso é algo… sem palavras! Eu imagino que deve ser um caminho difícil e muito mais pesado pelo fato de você está carregando nas costas o futuro de centenas de pessoas e por isso te desejo MUITA força e MUITO amor pra continuar carregando. Como você mesmo falou, nossa sociedade sofre dessa terrível doença que é o conformismo. Ao meu ponto de vista, nossa educação está tão fincada nas raízes da “pedagogia do amor” que esquecem que também precisamos de disciplina, cobrança. Eu posso dizer também que MORRO DE INVEJA desses alunos porque eu também quero ter aula com você? u_u Que mundo injusto esse, meu pai amado u_u
    Eu te desejo TODA FORÇA DO UNIVERSO, todo amor e toda paciência, pra que tu continue fazendo esse teu trabalho lindo, que pise nesse “ensino mecanista”, que ajude a construir seres humanos críticos em vez de apenas “calculadoras humanas e apertadores de parafusos”, porque somos muito mais que isso! Te adoro, Faah.

    • Faah Bastos
      Reply Faah Bastos 19 de abril de 2014 at 11:16

      É uma imensa paixão que me sustenta, com toda a certeza.
      É complicado sim, ainda mais em meu caso por ser uma professora nada convencional, com tatuagens, piercings, cabelo vermelho e um discurso revolucionário. Eu meio que piso no calo dos antigos e cria um ambiente meio carregado. No entanto, não posso dar passos atrasados só por causa de cara feia, não é mesmo?
      Eu não quero criar conformistas, nem ajudá-los a se propagar. Quero incentivar a busca pelo conhecimento, porque nada mastigado vale a pena. Eu quero inventores do pensamento, desbravadores do conhecimento. Quero atores e produtores da vida, não fantoches que somente obedecem, presos em cordas.
      Ensinar é uma luta que vale a pena.
      Obrigada pela energia positiva!!!

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