Crônicas e Poemas

OS LIVROS ME SALVARAM!

14 de agosto de 2012

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Eu ando tão agitada com a chegada do meu livro “Sol em minha Noite”, os preparativos para o lançamento, os pedidos dos brindes e outros exemplares para alguns parceiros, que acabei me distanciando de quase todas as redes sociais, da minha leitura costumeira. Tenham uma ideia que até ouvir música anda consumindo tempo, acreditam? Contudo, estava respondendo umas perguntas para o blog It Cultura, e me peguei questionando quando realmente me apaixonei pelo mundo da leitura, pelo universo da escrita. É curioso, mas a maioria das entrevistas que já li de alguns autores, dizem que amam a leitura desde que se entendem por gente, que de muito pequeno descobriu o mundo literário… Não estou dizendo que não é verdade, claro. Mas preciso dizer que comigo o processo foi diferente.

Eu entrei na escola com sete anos de idade, hoje em dia é uma idade muito avançada, mas como eu já sabia ler, escrever, fazer contas com até dois algarismos, fui transferida para a série seguinte. Minha mãe estudou um pouco mais que a quinta série, e meu pai chegou a concluir o ensino técnico ­– naquela época tinha outro nome, o qual não me recordo. Contudo, é evidente que nenhum deles tinha amor, gosto pela leitura, porém, meu pai tinha aquela paixão de ver os filhos lendo, devorando livros porque achava bonito (fofo!). Não tínhamos muito dinheiro, para ser franca, éramos uma família simples, então comprar livros era algo apenas para aqueles que possuíam dinheiro, acesso com mais facilidade. Em minha cidade nem tinha biblioteca, já começamos por aí. Mas o que faltava na conta bancária, sobrava na imaginação, e foi isso que me salvou da normalidade. Eu apenas ganhava boneca no Natal, a data mais aguardada do ano. Sim, eu escrevia cartinhas cheias de bonecos, nuvens, colinas e frases simples e diretas, para o Papai Noel, isso até os oito anos quando meu pai contou que ele não existia, e era por isso que nunca ganhava o que eu pedia. Como faltava dinheiro para comprar bonecas, Barbie (nunca tive uma!), meu pai me ensinou a criar meus próprios bonecos. Como? Ele e minha mãe juntavam revistas, livros usados dos meus irmãos mais velhos, e me ajudavam a cortar as figuras de cada um, formando famílias, casas, utensílios domésticos, móveis e etc. Espalhava-os no chão e brincava. Simples, não é mesmo? Foi aí, exatamente nesse momento, que minha imaginação fora despertada. Eu criava tramas que poderiam durar uma semana inteira para chegarem ao fim. Com o tempo, mainha começou a fazer “nega maluca” para mim, dos mais variados tipos e cores de cabelo. A minha preferida era uma toda preta com o cabelo azul. Era linda, mesmo que todo mundo falasse que parecia boneca de macumba, kkkk.

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Nós tínhamos apenas uma coleção de livros, eram verdes e na capa tinha príncipes, cavalos, princesas, castelos, a Chapeuzinho Vermelho, dentre outros. Era uma coletânea das melhores histórias infantis. Meus pais chegaram a ler, não todos, mas os clássicos sim (esse é o momento que começo a me emocionar relembrando). Os demais eu lia por amor, e relia, e lia de novo, até decorar. Eu amava a história dos “Doze Irmãos”. E depois que lia todos eles, o que eu fazia? Corria para o livro de Língua Portuguesa. Na minha época, as professoras faziam leitura de todas as lições, era uma forma de ensinar a ler bem em público, hoje em dia, quase não se vê mais isso. Eu adorava! Assim que meus pais compravam os livros para o ano letivo, eu devorava as histórias do livro de Língua Portuguesa. Mas vocês podem se perguntar, mas e o de História, na época Estudos Sociais? Meus pais não podiam comprar todos porque eram caros, então selecionavam os principais e compravam, ou seja, Português e Matemática, e confesso, não tinha muita coisa para ler em Matemática.

Eu li meu primeiro romance por puro tédio. Verdade! Eu nunca fui de ter muitas amigas, sempre fui estranha. Quando era pequenina, achavam que faltava feminilidade (e ainda falta!), pois eu parecia um menino com cachinhos. Traquinava horrores pela rua da nossa casa. Quando fiquei um tico mais velha, na casa dos dez anos, ninguém brincava em minha casa, eu não prestava para me sociabilizar. E as meninas nunca me chamavam para brincar porque eu era a única menina da rua sem uma Barbie ou até mesmo aquelas Barbie pirateadas. Eu me importava? Não sei. Eu tive pais ótimos, principalmente o meu pai, porque ele sempre se esforçava para dar mais do que podia aos seus filhos. Lembro até que uma vez ele tentou me dar uma Barbie, na época era aquela Barbie mergulhadora, já ouviram falar? Bem velha, né? Ela mexia as pernas!!! Toda menina queria uma dessa. Painho juntou a famosa grana, e quando estávamos na época do Natal, ele disse que me daria uma. Fomos para Salvador, Lojas Americanas comprar. Para chegar a loja, tivemos que passar pelo corredor de barracas espalhadas pela Avenida Sete, quem é baiano vai entender, é quase uma 25 de março, só que menor. Bem, para mim, naquela época era sim. E lá encontramos, só olhando, centenas das bonecas no mesmo modelo que a Barbie, traduzindo, pirateadas, e custavam bem menos. Resumindo? Eu peguei a Barbie mergulhadora, senti a caixa, mas devolvi. Optei pela pirateada, levei uma para casa e devolvi o dinheiro ao meu pai. E o que ele fez? Comprou um romance, só que não para mim, mas para a minha irmã, porque ela ficaria sem presente para que eu tivesse a minha tal Barbie original.

E em qual parte entra o tédio? Simples. Eu agora tinha uma boneca, mas era pirateada, e vocês acham que as meninas me aceitaram em suas casas? Não mesmo! Então, um belo dia, peguei o livro que representava a ausência da maldita Barbie. Era “Nada Dura Para Sempre”, mais de 600 páginas. Eu li em menos de uma semana. Imagine uma criança com seus 10 anos de idade devorando um livro tão forte, cheio de cenas densas e com assuntos que eu nem sabia o que era. Naquele momento, eu amei o mundo dos livros. Amei Paige, amei Sidney, amei os livros, amei a liberdade que eles me davam. Foram eles que me sustentaram em um mundo no qual não haviam crianças que não gostavam de mim, por diversos motivos: gorda, baixinha, quatro olhos, estranha, pobretona, e claro, sem a porcaria da Barbie.

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Os livros me salvaram! Depois do primeiro, jamais consegui parar. E o melhor, meu painho continuou lutando para dar o melhor que ele podia. Como ainda continuávamos sem dinheiro, ele procurou saber se na nova cidade que estávamos morando tinha uma biblioteca. Ele me acompanhou, fez o cadastro por mim, e conheci o mundo de Agatha Christie, Machado de Assis, Augusto dos Anjos, Edgar Allan Poe, Érico Veríssimo, Luiz Fernando Veríssimo, Fernando Pessoa, Oscar Wilde, e tantos outros. Minha adolescência foi protegida pela literatura, pelos contos de Arthur Azevedo, e por tantos outros autores capazes de me defender das coisas ruins do mundo.

Se me perguntarem o motivo pelo qual comecei a escrever, respondo sem hesitar: porque não queria, e nem quero, parar de sonhar, de imaginar, de sentir tantos e tantos corações pulsando dentro de mim, desejando ganhar vida. Eu escrevo porque também quero salvar vidas, proteger corações. Há algo mais humano e bonito que isso? É a melhor herança que deixarei. Meus filhos irão ler meus livros, sentirão emoções despertadas por minhas palavras, sentirão orgulho por serem meus. E por isso eu afirmo, a literatura salva, sempre salvou e com certeza, continuará salvando vidas.

Jamais parem de ler!

E VOCÊS? COMO COMEÇARAM O AMOR PELA LEITURA?

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5 Comments

  • Reply Paloma 14 de agosto de 2012 at 10:12

    Meu Deus que coisa linda, confesso que me emocionei lendo. Parabéns pelo seu livro!!! Muito sucesso pra ti. Um beijo

    • Faah Bastos
      Reply Faah Bastos 14 de agosto de 2012 at 10:48

      Obrigada pelo comentário! Confesso que também me emocionei em muitas partes, acaba se transformando em um tornado de lembranças. Fico contente por ter gostado do post!

  • Reply Henrique 16 de agosto de 2012 at 12:22

    Tão linda e triste ao mesmo tempo, chorei com sua história Faah. Que pais maravilhosos 🙂 , VAMOS FAZER UM RITUAL QUEIMANDO UMA BARBIE MERGULHADORAAAAAA! hauheuaheuahe. Sua linda, aguardo ansiosamente por Sol em Minha Noite <3

    • Faah Bastos
      Reply Faah Bastos 16 de agosto de 2012 at 14:13

      HUAHUAHAUAHAU, né? Barbie maldita! Obrigada por ler meu texto, e mais ainda por ter tocado tanto você. E o lançamento em Salvador está pertinho, estou apenas esperando a encomenda dos livros chegar aqui em casa.

  • Reply Vitória 26 de setembro de 2012 at 16:24

    Posso dizer que me emocionei lendo isso? Posso dizer, também, que a cada dia que leio esse blog, mais me fascino pela literatura e mais te acho incrível?
    Achei linda a forma que descreveu o fato dos livros terem simplesmente se tornado teu porto seguro.
    Comigo, foi diferente… mas a paixão por livros será sempre a mesma.
    Meus pais também não eram o que chamam: “com condições”, meu pai era socorrista, logo após, motorista de ônibus e minha mãe era enfermeira, mas largou tudo pra cuidar da gente, meu irmão sempre vivia doentinho. Bem, mesmo assim, meu pai fazia tudo pela gente. E sim, eu ganhava bonecas, fogãozinhos, ursos e tudo isso. Mas eu amava brincar, mas, sabe, eu brincava mais pelo fato do meu pai ter me dado, sabe? Não por pura vontade… era um agradecimento. E foi com esses bonecos que eu comecei a inventar cenários e afins. Eu montava com caixinhas secas de remédios pequenas cidades no chão da varanda, onde as bonecas moravam e os ursos eram os monstros. HUAHUAHUAUHAUHAUHUHAUH. Mas, eu gostava mesmo era de ler revistinhas de quadrinho. Comecei aí, nos gibis. Até que ganhei um livro grande da Disney, sobre a Cinderela. E as figuras eram iguais aos filmes, sabe? Eu li esse livro em dois dias. O que era grande coisa pra mim, eu tinha 7 anos de idade e o livro em torno de 200 páginas. Eu aprendi a ler cedo, aos 5 anos de idade. E igual a você, eu devorava todas as histórias dos livros de português e gramática da escola. A partir dos 8 anos de idade, ganhei apenas livros. Livros infantis, Cinderela, Bela e a Fera, Pinóquio… e comecei a ganhar outros livros como 20,000 léguas submarinas, de Júlio Verne, a Tulipa Negra de Alexandre Dumas, Terras do Sem Fim, de Jorge Amado… e foi aí que comecei a trocar tudo por livros. Eu não brincava mais com bonecas, não ficava na rua a tarde inteira correndo, eu ficava em casa, deitada no chão friozinho da varanda (sabe aquele chão liso de cimento, sem azulejos? pois bem), apenas lendo e lendo e lendo. Se o final da história não foi do meu agrado? Simples! Eu criava outro final muito mais legal. E foi assim que comecei minha paixão… o mundo dos livros era mais criativo que o mundo dos brinquedos. Mas vivo, mas real. Eu passava o recreio inteiro na biblioteca da escola… chegava com um livros nos braços e meu pai brincava: O QUE? MAS NEM TEM FIGURA NESSE LIVRO! UHAUHAUHAUHUHAUHAHUUHA E sabe, isso é até hoje. Novos mundos eu só encontro aqui, no papel.

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