Crônicas e Poemas

Os amigos que tenho e os que se foram.

9 de setembro de 2013

Tenho amigos que compreendem as minhas distrações de pensamento, as ausências contínuas, um lugar vago na mesa ou uma cerveja esquentando. Amigos que compreendem os meus sumiços repentinos, sem aviso prévio, cartão de natal ou a resposta para aquela carta escrita anos atrás – ainda residente em uma de minhas caixas de boas recordações dos tempos anuviados. Entendem o meu silêncio desmedido até nas horas de intensa vibração, vozes exacerbadas, discurso político e troca de farpas. Compreendem a minha mudez de mundo, de opiniões, e apenas dou de ombros negativando tudo com o balançar sorrateiro da cabeça, ou outrora  aceitam de bom grado as minhas visões românticas sobre o existencialismo, a poesia bucólica, a paixão imensurável pela literatura que brota dos mais variados cantos e quinas do meu ser… Amigos que a duras penas me aceitam distante das embalagens plásticas de “melhor amiga”.

Alguns perduraram uma única fase da minha vida, outros apareceram tarde, quando o tempo se tornou velho e os momentos sofriam de Alzheimer; e os mais impacientes se foram, fecharam a porta para as minhas estranhas escolhas e a maneira que encontrei para ser feliz. Dentre os distantes – residentes em minha memória por meras tolices que significaram muito –, há os magoados, uma subclasse formada por aqueles que encontraram em mim uma péssima reciprocidade, ou o vazio.

E não são poucos os momentos em que me pego a fantasiar como seria a minha vida sem as partidas ocasionadas pela minha incapacidade de ser como todos, de colecionar fotos, momentos, bares e amigos. Seria mais feliz? Eu sentir-me-ia mais acolhida, protegida por uma membrana impermeável de amor e cuidados?

Ao fim, coleciono perdas que transbordam a minha taça de vitórias oriundas de boas amizades, não conheço o motivo latente por tantas quedas, muitas – pois sim – devo aos meus tropeços, ao autoconhecimento das frustrações. Castigo-me involuntariamente a cada adeus que deixo escorregar em meus dedos ao balouçá-los de um lado a outro, vendo se perder no horizonte a silhueta de um velho amigo, agora ex.

Deixarei em aberto a resposta para o que é a amizade, não me importo conhecê-la. Arrimo-me ao fato que tenho poucos amigos, raros, mas os tenho, e consequentemente (mesmo que não saibam com tamanha certeza) eles me têm em todas as suas particulares tragédias e holocaustos sentimentais – dessas disparidades emocionais nós entendemos.

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2 Comments

  • Reply Vitória Santos 10 de setembro de 2013 at 15:18

    Acredito que pessoas vão e vem em nossas vidas. “Melhor amigo” é um rótulo, ás vezes acabamos nos apoiando em alguém que no outro dia nos decepciona. Amizade nos dias de hoje, é algo raro. Todo o afeto, carinho e preocupação andou se esvaindo em muitas pessoas… Muitas vezes nosso melhor amigo é a gente mesmo, ou o papel, a caneta e a xícara de café. Mas ainda há aqueles que se preocupam conosco. E vale a pena. Ás vezes nossa alegria ou a nossa dor é tão grande que não aguentamos guardá-las pra si, e é aí que entra a amizade. É o alívio e o consolo. Amigo é isso.

    Desejo que você tenha os melhores amigos do mundo, Faah. Que sejam poucos, mas que sejam os melhores.

    • Faah Bastos
      Reply Faah Bastos 11 de setembro de 2013 at 7:38

      Obrigada pelo comentário, Vitória!
      Realmente, tenho poucos amigos, mas são únicos e verdadeiros. Amo-os porque fazem parte de quem sou e sabem como eu realmente sou. É muito gratificante ter amigos assim. Meus amigos compreendem as minhas ausências, os tempos de completo silêncio, mas basta aparecer, ligar, chamar, é como se nada tivesse acontecido, como se o tempo não existisse.
      Eu espero que você também colecione ótimos amigos em sua jornada.

      Grande beijo!

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