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Nossa Temporada das Flores

4 de junho de 2017

Você me descobriu em uma dessas últimas noites de abril, quando o mês insiste em se prolongar um tanto a mais, sem pretensão de ser esquecido, de usar até o último segundo para se transformar em incrível. Ainda lembro de teus olhos afastando toda a escuridão da noite, criando uma camada de proteção contra os pingos tristes de uma chuva tímida. Daquele dia em diante, fui incapaz de piscar os olhos e perder qualquer detalhe de tua íris. Eu bebo de teu olhar e num instante depois retorno ao teu passado. Eu acho que ainda dormia quando você chegou, não senti o turbilhão de emoções; estava castigada pela incapacidade de sentir, e no entanto, meu abandono e desastre não assustaram você. É como se, de alguma forma, você já estivesse preparado para compreender meus demônios.

Você aprendeu a enumerar minhas manias que insisto em carregar entre os hemisférios de nossa vida; os sorrisos, e até mesmo criou um manual detalhando cada olhar. Você sabe que posso recitar meus melhores poemas apenas encontrando teus olhos. Você é como meus versos não escritos. Eu, por outro lado, sou desmedida, aflita e sufocada, me pego tentando recontar os dias que somamos juntos, as datas importantes, as viagens acumuladas, as vitórias conquistadas, como se a cada remexer em nosso museu de reminiscências fôssemos capazes de redefinir novos pontos essenciais para justificar o amor. Para mim, você já foi tantos sonhos, cobiças, flores e frutos, e não sei mais em qual livro antigo realmente te conheci. Suspeito que você já fazia parte de minha vida antes mesmo de nascer.

Mas você bem sabe, nos conhecemos em uma ruína de sentimentos e medos, e você se mostrou um menino que brincava de romance. Até hoje não entendo aquela tal cumplicidade que existia entre você e as estações. Admito que, por muitas vezes, desconfiei de sua natureza, quem sabe você em tantas outras vidas tenha sido o Sol…, o que justificaria essa sua doce mania de insistir em iluminar meu caminho durante a noite. Você tem essa coisa inquieta que podemos chamar de: ingenuidade sentimental.

Já disse inúmeras vezes ao Tempo que devore as horas. Eu quero viver essa imortalidade que os loucos dizem, somente contigo; tecer a linha da minha vida na sua, sem pressa, sem medo, sem remendos. Unir em uma única linha meus pesadelos com teus sonhos.

O mundo já sabe que você me redescobre mesmo quando me sinto perdida. E mesmo eu não tendo dessas belezas leves que agradam ao mundo, teus olhos me encontram como se em mim existisse toda a beleza que você procurou. Esse seu dom natural de transformar o caos em poesia tem desequilibrado a minha lógica todos os dias nas últimas nonas estrelas do amor – daqui a pouco serão dez.

Sua alma me incendeia com a mesma alegria que a última festa de aniversário que tive: o desequilibrar dos passos na sapatilha nova, as rendas do vestido cobrindo meu corpo, o calor das bochechas, e o vento balouçando os enfeites e as cortinas. Hoje, não me recordo de nada além daquela vontade de tocar as nuvens e rasgar os céus. É bem assim que me sinto quando estou contigo, todos os dias. Quando você nasceu, eu já esperava por você – talvez tenha sido no mesmo instante que aprendi a contar as estrelas; eu já buscava por você em tantos outros mundos.

Eu demorei um pouco mais de vinte anos para esbarrar em seu brilho. Desculpa a delonga, precisei afundar e quebrar meu coração algumas vezes ao longo da jornada. Foi difícil. Pensei que não resistiria, mas bastou você surgir para que todas as feridas desaparecessem, como se nada antes de você tivesse qualquer importância ou força. Você se tornou meu soldado, reino e muralha. Tornou-se impossível eu perder alguma batalha. Todas as minhas vitórias tem o mesmo sabor que teus beijos. E mesmo assim, perdoe-me a ausência de vestígios de minha existência ao longo de seus anos antes de mim, foram tempos difíceis para almas solitárias como nós dois. Tropeçamos nas almas rasas de tantas outras pessoas para, finalmente, mergulharmos nesse abissal oceano de constâncias que temos. Eu precisei viver um tempo isolada no mundo, empilhando cartas que nunca enviei, bocas sem sabor, toques ásperos e sem nome antes de cair na imensidão de tua alma, navegar em tua íris.

Eu desconfio que você compõe meus sonhos, pois faz moradia em todos eles, sempre como a força que me resgata ou se afoga comigo, sempre na mesma proporção de alegria ou desastre. Nós sabemos que são meras questões de semântica, para nosso amor tudo se mistura, se funde e nada é jogado fora, até as quedas. Temos manias incontroláveis de permanecer ao lado do outro. Até confundo meu cheiro com o teu. Acho que somos um só habitando o mesmo mundo, dividido em dois corpos. Você se encontra em mim assim como resido em você.

Agora não estou mais sozinha. Não tenho mais medo do mundo. E quando sua boca encosta em minha pele é a vida em sua forma mais pura e simples – é você reconquistando fronteiras em mim. A cada instante me vejo renascendo, tua alma realinhando os cosmos e acendendo as estrelas, é a vida se renovando nas estradas de nosso amor. É chegada a hora de prolongarmos a nossa temporada das flores, meu doce e perfeito amor.

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