MORRO A CADA NOTÍCIA SUA

Sob uma camada fina de chuva, repenso em meus segredos esquecidos numa vala qualquer do pensamento, sem pretensão alguma de resgate. Volto a dedilhar com cuidado a sua carta – recebi apenas hoje, nessa manhã chuvosa, tranquila, quase solitária de um mundo barulhento que não me quer. Aposto que o Universo conspirou a favor das suas palavras, por isso me prendeu nessa casa que já fora nossa, afundando-me nessa poltrona para propiciar um ambiente mais sombrio, formar um oceano de lamentos diante meus pés, fazendo-me afogar em cada palavra sua. Eu preciso confessar que ter notícias suas é como abrir uma janela, emoldurando a tristeza emancipada nas nuvens, mesmo que me transforme cada vez mais em um ser minúsculo, faltando espaço para meu coração. Quando se é forçado a permanecer paralisado nesse exílio em que me jogara tempos atrás, tudo que sobra é a mobilidade mental, imaginária, que corre de um lado a outro da minha vida, podendo saltar travessamente até o futuro e programar possíveis ações que quem sabe um dia terei; da mesma forma facilitando a construção de uma ponte que me jogará na marcha ré do passado, o que é mais perigoso, lá estão as lembranças, ou seja, lá está você. E falta-me coragem de remexer nesse baú de recordações e libertar a sua imagem, mesmo quando a recrio diante meus olhos, ocupando o sofá da sala com seu corpo pálido e frágil, com seus joelhos redondinhos, as maçãs do rosto coradas enquanto dedilha com carinho a lã que tricota com tanta astúcia. Ah… o tempo deixa de existir quando me deparo contigo, mesmo fantasmagórica. Essas pontas de dedos criando uma manta para proteger seu corpo do meu, levando tudo de você para tão, tão longe de mim. É doentio, eu sei, mas é dessa forma que os dias passam dentro dessa casa.
Não há vida em nada, até as flores morreram, bem provável que se suicidaram assim que notaram a ausência do seu cheiro entre nós, entre os meros mortais abandonados. Você não apenas se foi como num sopro suave de uma tarde de outono; você simplesmente demoliu as cascatas de felicidade que despejavam murmúrios de amor em minha boca. Abandonou-me como um pássaro que não precisa do ninho em manhãs de sol. Sobrou-me esses espaços em branco, simbolizados pelo desalento da minha alma inconstante, consternada, talvez até indignada com sua fuga da nossa história de amor. Desalentos tão violentos que sufocam meu corpo, afundam suas garras em minha garganta cortando o ar, as palavras e até mesmo – principalmente – os versos que ousei escrever.
Eu fui internado nesse caixão de memórias com o intuito de refletir acerca minha condição como homem, antes de amante. Coube-me o tempo para que pudesse sentar e pensar em nós, nas tormentas apaixonantes que rodeiam – ainda – a minha mente confusa, puxa com agressividade meus suspiros e os dominam como se tudo em mim fosse um terreno baldio, esquecido pelo calor da vida, largado em meio a névoa de segredos que você se recusou compartilhar. E me pego, infelizmente, a reviver as tardes de domingo em que sentávamos na varanda dos nossos olhos e refazíamos as trilhas de beijos, melhorando cada uma com passos mais firmes das nossas línguas. Éramos tão vivos e cegos, absurdamente cegos. Todavia, ao receber sua carta sempre me pergunto do que me serve notícias suas, do que me serve tanto tempo para reflexão se não há mais nada além dos passos de agora? Mas me serve. As notícias que esmiúça em suas palavras sempre confortam uma fera, uma besta fera enfurecida que habita os espaços que andaram expulsando você, acaricia a alma de um homem que reinventa a sua história, mentindo para si mesmo que será capaz de prosseguir, que a chuva passará e toda a manta de incerteza sumirá, será queimada pela vivacidade que ressurgirá em mim. E o tempo? Ah, o tempo se torna responsável em amadurecer, de ir conhecendo meus próprios limites, retirando cada chaga e analisando-a com um cuidado terno, pois a qualquer descuido volto a desabar, criando uma névoa de poeira dos destroços em mim.
Tenho treinado a paciência e passei a esculpir o sexo, pois deixei de entendê-lo quando seu corpo passou a faltar em meus dedos. As penetrações que ouso fazer deixaram de lado o prazer, apenas abrem lacunas imensas, ocupadas por um vazio tão sombrio que propicia arrepios fúnebres em meu corpo, confundidos com espasmos de prazer. E assim vou levando, esmiuçando cada capítulo dessa sobrevivência rotineira, diária, vencendo e perdendo diversas batalhas, conquistando reinos abandonados por você, guerrilhando para retomar o poder de mim mesmo.
Realmente ter notícias suas abre uma janela em minha casa, mas é perigoso, pois a cada palavra, a cada toque do meu dedo na tinta da sua caneta, sinto uma porta surgir diante do meu corpo moribundo, falho, desprovido de vida. Enlouquece-me a possibilidade de abrir a porta e correr entre as estradas a procura de você, daquele amor que não me deixaria, jamais desistiria de pintar céus em meu corpo, nas nossas horas devassas que copulavam uma sacana vontade em sermos eternos. Você escreveu: “Eu morreria por você se assim fosse necessário”. Nunca entenderá que ando a morrer um tanto a cada dia, que a tampa do caixão fora aberta em sua partida e lancei-me ao sono profundo, meio morto, meio vivo, meio seu, nada meu. É uma escolha continuar sofrendo, mas somente dessa forma sou capaz de ainda materializar você caminhando de um lado a outro, muitas vezes confundindo o som da sua risada com o balançar suave das pétalas de uma rosa. Eu misturo o mundo em você, achando em tudo seus olhos, sua boca avermelhada, o canto dos seus lábios que por tantas vezes foram lambidos por mim, pela mesma língua que desbravou municípios e estados em sua pátria – na pátria que um dia fora minha.
Ter notícias suas é reviver o dom da vida, aquecer meu corpo e dentro do meu coração acender uma fogueira, despertando os mais variados sentimentos, e ao fechar sua carta é morrer, de todas as formas, num lapso de segundo sem possibilidade de retorno, pois sem você aqui… tudo se torna imaginário: eu, a chuva, sua carta, o vento e o nosso amor.





