Crônicas e Poemas, Projetos & Trabalhos

Eu tinha medo de ser mulher.

14 de março de 2015

Eu nunca fui uma garota delicada, sempre me sentia mais confortável repetindo atitudes masculinas, folgando as roupas, evitando maquiagem, cuidados com a pele, e tudo que pudesse ser relacionado ao âmbito feminino, simplesmente com a justificativa de ser “frescura demais”. Eu tinha medo de ser mulher, e somente me dei conta desta realidade à beira dos trinta anos.

Eu ansiava a mesma liberdade que somente os homens possuíam: andar pelas ruas sem receber ofensas sexuais, sem ter que me preocupar com o tamanho de uma peça de roupa, moldar minha mente e limitar meu vocabulário de palavras chulas. Eu não queria alimentar a obrigação em ser bela, saber cruzar as pernas, andar de salto alto e ser delicada. Estava focada em ser desastre quando o mundo inteiro tentava pintar meus modos de acordo com o gênero. Eu nasci mulher e precisava me comportar como uma. Logo, quanto mais me mantinha afastada das convenções da sociedade pautadas no sexo, eu conquistava o direito ilusório de ser quem eu acreditava que era.

Porém, quanto mais ansiava por liberdade, perdia minha essência, abdicava de meu direito particular de ser quem eu queria, e me reprimia para ter a liberdade associada ao sexo oposto.

Passei a adolescência sustentando a opressão, em partes porque nem entendia o que era o movimento feminista; por outro lado, o receio de quebrar as correntes excedia a minha necessidade em ser vista como pessoa, não somente mulher. Minhas vontades eram conduzidas por todo um sistema muito bem trabalhado em que as mulheres sempre seriam vitimadas, conduzidas para a beira de um fogão, representadas nos livros didáticos como professoras, enfermeiras, jamais médicas ou advogadas.

(E não estou menosprezando nenhuma profissão. Eu mesma abdiquei da carreira advocatícia para ser professora. O que realmente estou evidenciando é o discurso machista que “há cursos para mulheres e cursos para homens”.)

Aos poucos (em passos bem lentos), descobri que somente estava adiando ser mulher – afinal, ser mulher, segundo todos os planos educacionais, era ser limitada, submissa, obediente; já em meu coração, a necessidade de gritar, quebrar limites, ser ouvida, revolucionava as entranhas de minha existência. Era um conflito, um impasse que durara anos, e ao longo das décadas, fez aniversário, somou opiniões, se solidificou.

Sinceramente? Eu era machista mesmo sem entender o que a palavra, de fato, significava. O mais aterrador de tudo era acreditar que não havia nenhuma disparidade entre os gêneros, éramos pessoas fazendo escolhas livres. Eu era uma repetidora de paradigmas responsáveis por quebrar o sistema de igualdade. E assim como um soldado absurdamente cego e obediente, torcia a boca para qualquer ideia de liberdade, respeito entre os sexos, valoração da mulher não apenas como a única capaz de ser mãe, e sim como um indivíduo social como outro, com capacidades e limitações que não deveriam ser impostas com a justificativa que somos “mulheres”, mas sim, humanos.

Aprendi o que significa, realmente, a sororidade. E aproveito o espaço para me desculpar por todos os julgamentos silenciosos lançados contra outras mulheres em relação as vestes, o comportamento, a vida sexual. Eu estava apenas repetindo tudo que me foi ensinado. Por sorte, a consciência de existir em uma sociedade cuja base é machista, veio a tempo – a tempo de me redimir comigo e com tantas outras de nós. A luta existe, mesmo quando silenciosa. Eu jamais estive acima dessa opressão mascarada de “bom senso”. Eu era uma oprimida, e assim como as palavras de Paulo Freire sobre a “Educação do Oprimido”, eu favorecia as ações opressoras, porque “apertava parafusos” sem entender o maquinário inteiro, sem compreender a importância daquele parafuso no processo final.

Hoje, posso dizer abertamente que sou casada com um homem maravilhoso, tenho rituais “femininos”, coleciono batom, ouço heavy metal e assisto UFC, e no entanto, essas confusões que jamais se casariam segundo a ordem natural de tudo, ao meu ver, auxiliam a entender quem sou. Não faço parte de nenhum grupo feminista, tampouco ergo alguma bandeira. E no entanto, nada disso me torna menos MULHER. Estou neste mundo para viver de acordo com minhas projeções pessoais, desprendida do ônus de ser apenas o que meu sexo determina. E jamais, jamais me calarei enquanto tantas outras de mim forem oprimidas pelo sistema machista, pela máquina que anseia o silêncio. E para conseguir nos emudecer, nos agridem com tapas, retiram nosso direito a escolha, nos transformam em objetos que existem apenas para saciar as necessidades sexuais dos homens, sem direito a andar nas ruas tranquilamente, sem espalhar pelo mundo nossas ideias e sentimentos. Anos e anos sendo classificadas como românticas, dramáticas, histéricas, possessivas, desequilibradas que durante a menstruação são levitadas pelas ruas por causa de um absorvente, ou que somente usamos perfume para conquistar um homem.

Não haverá silêncio em mim enquanto outras não encontrarem essa consciência, evidenciarem a existência de suas particulares cadeias. Cada uma de nós tem o DIREITO de ser quem quisermos ser, de falarmos por nós mesmas, sem um homem que nos aplauda, entre no grupo de “estamos aqui para defender vocês, mulheres” – somos capazes de defender cada uma de nós, sem precisar de um homem para nos respaldar. Esta luta (sim, digo esta) é unicamente nossa. Estamos bem, ainda seremos maiores.

Eu encontrei a verdade, mesmo que (talvez) tardia. Explodi a bolha em que vivia afastada da verdade, acima “do bem e do mal”, protegida por uma membrana de mentiras e dogmas. Hoje posso dizer que sou mulher e não tenho medo de ser exatamente quem sou, e quero que cada uma de nós também tenha essa direito.

Prosseguimos, então, lutando dia após dia. E venceremos. Venceremos.

Quero deixar um agradecimento pessoal a Aline Valek, Gabriela Ventura, Luciana Genro, Lady Sybylla e Clara Averbuck – mulheres que, indiretamente, me ajudaram a sair da bolha.

***

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3 Comments

  • Reply Sybylla 14 de março de 2015 at 15:32

    Por muito tempo, desde a adolescência, “ser mulher” me incomodava. Eu via as meninas populares do colégio e me irritava com elas, pois elas pareciam mais preocupadas em ser bonitas (e por consequência mais bonitas que eu) e eram reduzidas apenas àquilo, a estarem com a roupa da moda, ouvindo as músicas da moda, retocando a maquiagem nos corredores.

    Eu invejava a facilidade com que elas passam um rímel, mas dizia que isso era ser fútil demais. E eu não queria ser fútil, eu não queria ser popular. Eu era da galera metaleira do colégio, mas por ser mina era renegada, pois acham que eu estava seguindo a modinha. Ainda hoje é assim quando digo que sou nerd e trekker. Ser mulher é ter que ficar o tempo todo sendo medida sobre o quanto é algo o suficiente.

    Foi só na faculdade, mais de dez anos depois disso, que eu percebi que meu incômodo era bobagem. Eu podia muito bem fazer aquele olho preto esfumado e sair na rua sem medo de ser feliz, pois me sentia segura e confiante por saber que não havia nada errado nisso. Vejo muita gente ofendendo mulheres famosas ou que sejam artistas, como se elas não pudessem ser inteligentes, e ofendendo mulheres ditas inteligentes para que não usem muita maquiagem ou roupa curta demais. Elas “perderiam a credibilidade”.

    São as outras mulheres maravilhosas que conheço que me dão força e que me mostraram que sim, podemos ser o que quisermos, apoiar umas às outras e ainda assim tacar aquele batonzão vermelho e gritar “Tá incomodado, se muda, campeão”. A vida é assim, feita de aprendizados diários, pequenos, grandes, individuais e coletivos.

    Fico muito feliz de poder ter contribuído em algo para seu descobrimento e agradeço também à todas as mulheres incríveis que me ajudaram. Grande beijo! 😀

  • Reply Vitória 19 de março de 2015 at 18:30

    Faah, você é linda. Eu acho que nunca cheguei a comentar nada seu relacionado a feminismo.. Nem sei porque. Talvez por besteira minha. Você sabe, sou aquela pirralha teimosa de opiniões fortes que você mesmo disse. Entretanto, ás vezes há equívocos demais em mim e eu devo admiti-los. O machismo é algo que existe. Sim, existe. Mas muitas pessoas, grupos, movimentos e sociedades tentam abafá-lo, mostrando que isso é frescura ou drama. Eu mesmo já revirei MUITO os olhos quando ouvia essa palavra. Sim, já julguei demais tudo que lia em relação a machismo, já julguei demais mulheres por causa disso. Só que aí vai meu equívoco. Eu revirava os olhos ao feminismo em si porque muitas vezes ele é relacionado a esquerda. E você me conhece, né? Pelos meus tweets calorosos e posts (aliás, aproveito e peço desculpas se algum já te ofendeu. e ao mesmo tempo agradeço, por nunca ter mudado sua maneira de agir comigo mesmo tendo pensamentos diferentes). Enfim, por não concordar com tal ideologia, eu desprezava o feminismo. Ainda hoje, não me considero tão feminista, pelo menos, não levanto nenhuma bandeira… Mas sim, eu defendo e acredito na autonomia da mulher. Em suas escolhas. A mulher é um individuo tão singular e tão importante como um homem é. E eu acredito nisso, no individuo. A mulher é pra tá onde ela bem entender e ponto final. Seja professora, seja policial, seja na cozinha ou consertando um cano quebrado. Ora porra! Mas também acredito que a sociedade anda mudando, mesmo que seja aos poucos, mas está. Mudamos muito se for comparar a décadas atrás. E vamos mudar ainda mais, isso sim! Eu não concordo com muita coisa de certos movimentos, acho que alguns até mesmo mancham o verdadeiro significado do feminismo, mas eu acho que isso ia dá uma discussão maior que esse comentário. Só queria mesmo dizer que sim, seremos livres, somos livres. Livre pra morar sozinha e ter uma vida sexual com quem bem quiser ou livre pra casar ter três filhos. Ou seja, livres para escolher. E sem julgamento, porque a vida é minha! E se isso for ser feminista, então, prazer! Eu sou! E é isso. E queria dizer que você é linda. É linda de batom rosa com blusa rasgada do Iron Maiden. É linda quando se declara toda bobona pro seu mozão. É linda quando fala palavrões e depois posta música bonitinha do Rei Elvis. É Um linda dando aulas, é linda fazendo uma nova faculdade, é linda de todo jeito e eu te admiro e muito! Um beijo imenso.

    • Faah Bastos
      Reply Faah Bastos 24 de março de 2015 at 22:15

      Seus comentários sempre quebrando meu coração de tanta fofura…

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