Crônicas e Poemas, Palácios Confusos que Habito, Slide

Eu sou o meio, a parte indivisível, o instante.

13 de outubro de 2017

Câmera Moto Z – VSCO.

Aos dezoito anos, eu perdi meu pai. Naquele momento, um espaço vazio e negro se construiu em minha alma. Durante dez ou doze anos, essa mesma mancha negra, densa, se alimentava de absolutamente tudo de minha juventude, desde os pequenos detalhes até os mais complexos artifícios. Foram memórias corrompidas pelas consequências da morte, como a solidão, angústia, ansiedade, depressão. A morte não me pareceu mais algo que eu somente sentia, tampouco foi uma ausência que atingira meu epicentro emocional. Essa passagem de tempo permeou toda a casa dos meus vinte anos. Foi um processo muito árduo e cansativo equilibrar os dias mesmo quando não conseguia levantar da cama devido o mar negro que se alastrava em mim. Então posso dizer que eu não senti a morte de meu pai, eu a vivi. Foi algo físico, não meramente emocional. A morte e suas variações estavam em tudo ao meu redor, até no correr dos ponteiros do relógio – uma perseguição sem fim.

Hoje, não sei se posso dizer que encaro a morte com os mesmos olhos de antes. Havia muita raiva, mágoa, ressentimento; de certa forma, essas sensações e sentimentos eclipsaram o real sentido da morte. Então, não. Não tenho medo da morte. Eu só não suporto a ideia da ausência, do espaço vazio deixado quando alguém se vai. Me corrói a alma conjecturar a possibilidade de existir sem minha base, sem o sustento dos dias. E quando falo em sustento, alimento, refiro-me ao amor e suas representações físicas e cotidianas. Da mesma forma que a morte me alcançou como uma presença, o amor se tornou energia condensada em forma de pessoa, me pareceu mais justo, e emocionalmente satisfatório. Hoje, eu tenho Rafael.

Estou aqui escrevendo este texto, alinhando as palavras, beirando nossa cama, enquanto ele ocupa o outro cômodo da casa, mergulhado em seu próprio mundo, e uma parte de minha mente se ocupa em saltar sobre a frágil barreira que se interpunha entre nós – a calamidade de um desastre. Essa possibilidade de perdê-lo, não para o mundo, visto que somos indivíduos livres e chegamos a um ponto muito importante em nosso amor compartilhado de não sufocarmos um ao outro, mas coexistimos de forma equilibrada; mas sim, o queimar de sua presença, de simplesmente deixar de ocupar um espaço físico e real no hoje, no agora, em minha vida, me desaba. Parece-me insano e injusto continuar sem a energia dele serpenteando minha vida, uma vez que as minhas ramificações cinéticas estão arraigadas às dele. Chamam isso de amor; outros, loucura. Eu prefiro a primeira opção.

Eu gosto de apreciar a ideia de existir entre a vida e a morte. Eu sou o agora. Enquanto meus olhos correm pelas paredes brancas de meu quarto, há milhares de pessoas abrindo os olhos pela primeira vez, enchendo seus pulmões; do outro lado desse muro, tantos outros sendo ceifados, despedindo-se dessa fragilidade que é a vida. E, eu sou o meio, a parte indivisível, o instante. Não há limites entre o princípio e o fim. Como se tudo o que sou agora fosse nomeado como literatura – essa capacidade de criar mundos, nomear a vida e a morte, ser a essência das forças, dos pactos sociais, das resoluções arbitrárias sobre como ser, o que ser, e por quê ser.

Encanta-me a ideia de ser um broto verde que nasce na fresca de uma rachadura em um edifício qualquer, aquela pequena partícula de vida rompendo o concreto e sua solidez. Talvez seja a minha forma de encarar a morte: o edifício é a vida, seus habitantes, os espaços, as limitações (territoriais e/ou emocionais); já a sorrateira e audaciosa rachadura é a morte, surge de um pequeno espaço, um deslocar suave e imperceptível, até que todas as paredes sejam consumidas pelas corrosões do tempo, das ações naturais, da presença do homem e sua vida moderna. Eu e a relação que mantenho com o amor, somos a fotossíntese. Nada mais. Existo na inevitabilidade, compartilhando minha energia (sendo energia) entre dois polos tão distintos. Neste instante exato não há vagas para o medo seja da perda, da ausência, pois neste a-g-o-r-a não cabe espaços vazios, apenas amor.  

 

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2 Comments

  • Reply Fernanda Rodrigues 13 de outubro de 2017 at 18:22

    Faah,
    Mais do que o domínio literário, que você tem e muito, você sabe disso, o que mais me toca é a sua forma de olhar as nuances da vida, em particular, aquelas que todos empurram para debaixo do tapete.
    Seu texto capta justamente a profundidade fugaz do agora. É lindo de se ler. Em um mundo em que todos escolhem odiar, aquece o coração ver alguém que privilegia o amor.
    Beijios grandes,

    • Faah Bastos
      Reply Faah Bastos 14 de outubro de 2017 at 6:53

      Fê,
      Parece que odiar é mais fácil, não precisa de toda a dedicação que exige o amor. Não há rotinas, saudades, fragilidades. Tudo é mais simples quando se odeia, e, nós sabemos, alguns preferem o caminho mais fácil, pois desapega com mais tranquilidade, o adeus é natural. Alguns nem olham para trás. É complicado habitar um mundo em que o amor é tão massacrado. O bom é que ainda nos resta essa dose constante de amor próprio.
      Obrigada por suas palavras.
      Beijos!

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