Crônicas e Poemas, Querido Diário

Eu cansei de ser vista como alguém feita de estragos.

9 de outubro de 2015

Antes, eu costumava acreditar que todos ao meu redor tinham o poder de perceber os estragos que haviam em mim. Como se o meu andar, meu olhar, minha postura, minhas ideologias, fossem suficientes para dizer “ei, há algo bem machucado dentro daquela garota”. Mas quando me dei conta que deixar tudo assim muito claro também me transformava em alguém vulnerável, me fechei. Eu tranquei as portas de minha casa e só deixo entrar quem conquista minha confiança.

Não permito que qualquer um veja minhas feridas, conte as rachaduras. Eu cansei de ser vista como “alguém feita de estragos”. Quem olha para mim jamais saberá as mágoas que senti. Deixei de ser um livro aberto porque nem todos são bons leitores. Passei a recitar minha história para aqueles que sabem ouvir. E digo com sinceridade e propriedade, muitos parecem ser surdos.

Eu não abro mais as janelas da minha alma e solto o meu melhor. Mantenho tudo muito bem guardado, sem desperdiçar uma gota com os desmerecidos. Eu cansei de doar sem jamais ser somada. Você aprende, em algum momento em sua vida, que ser acessível nem sempre lhe trará alguma felicidade. Para saber de mim é preciso escalar algumas muralhas – elas existem para impedir que as almas escuras nunca apaguem a minha luz.

O tempo passou e as lições vieram – algumas após quedas absurdas, decepções cortantes e profundas – para me transformar em alguém que reconhece seu próprio valor sem que o outro sussurre em meu ouvido. Eu sou o único grito verdadeiro que permito ecoar.

Eu sou o único grito verdadeiro que permito ecoar.

Não desprezo o amor, tenho em mim as mais lindas histórias motivadas pelos laços amorosos. Contudo, o amor que guardo é medido, e só se desequilibra quando me lanço aos braços do único homem que soube cuidar de todos os holocaustos, das feridas, das agonias, dos pesadelos… O único homem que não apenas escolheu fazer amor comigo, mas também com minhas tragédias. Para ele, meus caros, liberto tudo que há em mim, até a noite.

O único homem que não apenas escolheu fazer amor comigo, mas também com minhas tragédias. Para ele, meus caros, liberto tudo que há em mim, até a noite.

Eu entendi que não há garantias, e eu passei da idade de arriscar. Minha casa é um museu de recordações – coleciono vestígios de minha existência –, e não mais permito ser visitada por qualquer pessoa. Eu criei meus próprios requisitos. Optei por contar nos dedos o número exato daqueles que me conhecem, aos demais deixo apenas um simples recado:

“Antes de bater em minha porta, por favor, limpe os pés..”

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1 Comment

  • Reply Dani Antunes 17 de novembro de 2015 at 15:36

    Maravilhoso ver o quanto você amadurece a cada dia, Gata. Sério… A cada post pessoal teu eu percebo isso. E o melhor é que, como eu penso “muito igual” a você, é sinal de que eu ando amadurecendo também.
    Não é de hoje que eu sou dessa opinião. Recentemente, inclusive, me afastei de algumas pessoas de quem eu gosto bastante porque eu acho que em determinadas áreas da minha vida (no caso dessas pessoas, amizade…) as outras pessoas não têm de se meter.
    Pra variar, meu comentário dá um post. Mas, nem vou fazer não, não dessa vez, mas só porque eu odeio bater palma pra maluco (nesse caso, malucos que eu sei que me lêem) dançar. rs
    No mais, feliz aniversário. Atrasado, mas de coração.

    Bem-vinda aos 29! =)

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