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Entre caixas e vazios.

12 de julho de 2016

 Trecho do livro Sob o céu de um Crepúsculo.

“Um dia, alguém entrará na sua vida e te fará entender o básico: você só estava esperando a pessoa certa”, quantas vezes eu tinha ouvido essa mesma sentença nos últimos meses? Por que a minha felicidade deveria depender de outra pessoa que me completasse? Em qual ponto da história deixei de acreditar na concepção da Gestalt “eu sou eu; você é você”, o que me tornaria uma pessoa completa, inteira, sem necessidade de atrelar minha completude a outro ser? Será que eu não poderia ser feliz sem precisar da validação do amor oriundo de um desconhecido qualquer? – que iria me conhecer em uma noite fria em um bar, dividiria um conhaque comigo ou alguma cerveja barata, depois transaríamos de forma casual e sem compromisso até o dia seguinte, quando a enfermidade da solidão me diria, aos berros, o quanto o meu relógio biológico estava correndo e eu precisava urgentemente de um macho alfa para chamar de meu, deixar suas cuecas sujas pelo banheiro, assim como os pelos matinais, as coçadas de saco sobre meu sofá vermelho cheio de histórias, ou iria arrotar como um porco um pouco antes de bater na minha bunda consagrando a minha mediocridade de ser a mulher de um troglodita. Os meses iriam passar, até mesmo anos, até que eu perceberia (após uma pancada violenta do destino que aqui chamaremos de traição) o quanto ele fodia mal, fedia regularmente e não entendia nada sobre a vida e o amor monogâmico. E, embora eu estivesse disponível novamente para o amor, preferia a solidão contemporânea do que firmar compromisso com mais um tipo repetido de canalha não-sentimental e vazio de valores básicos.

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Soltei um suspiro longo e carregado de sarcasmo enquanto passava fita adesiva em uma das últimas caixas de livros. Camila, com seus olhos imensos e infantis, me observava a espera de uma resposta positiva, banhada de sentimentalismo clichê ou de mensagens de esperança retiradas de alguma página idiota do facebook.

– Eu não preciso de um homem na minha vida – disse, por fim.

Eu podia ouvir o ranger de dentes da pequena Camila enquanto processava minha birra.

– Como você pode ser tão teimosa? Vai ficar pra titia só porque não deu certo com ele? Está resumindo todos os…

Ergui um dedo em sinal de protesto.

– Eu não estou dizendo que odeio os homens ou que todos são iguais. Sou mais inteligente do que isso, por favor. – Levantei a caixa com dificuldade e coloquei sobre outra, perto da porta. – A questão aqui, e que fique bem clara, é a minha falta de interesse e disponibilidade para entrar em qualquer relacionamento que não seja, no mínimo, incrível.

– E você vai conseguir encontrar esse tal relacionamento incrível empacotando todas as suas tralhas, se mudando para um interior fodido e negando qualquer aproximação com o sexo oposto?

– Eu não sou mais uma adolescente cheia de medos e inseguranças. Já tive a minha dose, mais do que suficiente, de ensinamentos sobre a vida amorosa. Eu adquiri uma capacidade impressionante de determinar com precisão e antecipação se o cara vai valer a pena. É só seguir entendimentos básicos, se ele for reprovado logo de cara, paro no exato instante, e há aqueles que nem valem a pena testar. – Coloquei as mãos na cintura e observei a pequena sala do meu humilde apartamento repleta com caixas amontoadas. Um amargo surgiu no centro da garganta. – E eu não sou adepta da ideia patética que toda mulher deveria saber como mudar seu homem. Estamos vivendo em que época? – Sacudi uma das mãos no ar como se afastasse a ideia. – Mulheres morreram por nós para que tenhamos os direitos que usufruímos, e, seria ridículo e desonroso alimentar a ideia de que o homem é bom quando a mulher presta. Você mesma deveria rever seus conceitos sobre caras e entender que não somos babás de mendigos sentimentais.

Camila forja falsas palmas e revira os olhos, se apoiando despreocupadamente em um conjunto de caixas no canto da parede.

– Me fale mais sobre isso daqui dez anos e vamos ver se você ainda vai defender esse papo feminista.

– Como pode uma doce mulher como você não entender a importância do empoderamento? – Inclino-me em sua direção e lanço um peteleco suave em sua testa. – Precisamos entender que o amor não é uma obrigação. E eu tampouco mereço migalhas de outra pessoa. É pedir demais amar e ser amada com sinceridade? Por que tudo precisa se tornar um jogo de cartas marcadas para que sejamos superficialmente felizes?

– Você fala como se todas nós estivéssemos em num seriado com personagens fortes e decididas. Mas a questão verdadeira, amiga, é que estamos sozinhas. Vivemos em uma sociedade majoritariamente solitária, e se continuarmos mantendo esses seus pensamentos…

– Não são meus pensamentos, mesmo eu querendo ter participação nesta autoria – provoquei.

– Muito engraçada. – Ela se apoiou nas caixas e levantou meio preguiçosamente. – O que eu quero dizer é que aprendemos a buscar o amor. E eu quero que você encontre um cara que seja tudo isso aí que está organizado em camadas na sua mente, mas por outro lado, tenho medo de que não será capaz de desfrutar a felicidade que é dividir a vida com quem amamos, assim como eu. É pedir demais que você pegue leve em suas convicções, sonhe mais baixo e encontre um cara bacana, tenha uma vida normal e pronto?

Eu suspirei pesadamente mais uma vez e levei as mãos até os cabelos. Aquela discursão já levava anos e nada nos argumentos, de ambos os lados, mudara. Logo, se eu queria que Camila mudasse de assunto deveria dar a história por encerrada.

– Um dia eu encontrarei alguém com quem eu queira compartilhar a minha história, tudo bem?

– Você deveria querer um alguém para ser parte de sua história.

E pela primeira vez, talvez (só talvez), minha doce amiga poderia ter razão.

Ficamos caladas por alguns minutos observando as paredes brancas vazias das estantes repletas de retratos, da pequena coleção de criaturas mitológicas de vidro, dos discos de vinil que fizeram aniversário de não uso, dos diplomas de Direito, do curso de Fotografia (uma loucura sem tamanho que me dá alguma satisfação real na vida), das fotografias soltas que não ganharam porta-retratos – responsáveis por contar algumas partes soltas da minha história, dos momentos estranhos que andam se perdendo em minha memória, da época em que tudo fazia algum falso sentido; As caixas amontoadas ocupando os cantos da sala, empilhadas sem estrutura perto da porta, como se todas as minhas memórias estivessem esticando seus braços para ganharem a rua e nunca mais voltar. Estar ali, entre caixas e vazios, era como contemplar a minha vida insignificante. Era questionar a possibilidade de toda uma vida caber em caixas de papelão. O que eu tinha feito com a minha vida até aquele momento? Como as minhas memórias eram tão pequenas que poderiam ser transportadas de uma cidade a outra sem nenhum dano? O que eu tinha feito com todas as recordações densas que manipulariam a minha forma de ser? Quantas vezes eu deixei de lado quem sou para conseguir caber em caixas?

Camila deve ter notado a frustração em meu olhar, pois fez sua voz ecoar naquele vazio esquisito.

– Pelo menos a mudança te fará esquecer. Esta cidade não te faz bem.

Trocamos um olhar sofrido de quem não revelará os segredos por trás de suas palavras, pois nós duas tínhamos decorado aquele trecho da vida. Sabíamos, de alguma forma, que as memórias não estariam atreladas às paredes. O problema não estava na cidade; estava nele – na minha maldita teimosia de associar lugares a memórias; na mania de vê-lo em todos os pontos de ônibus, nas esquinas, nas bancas de revista, nos cafés e restaurantes que, ao longo dos três anos, foram refúgios de nossos encontros amorosos. Eu não estava segura naquela cidade. Ele estava em tudo, principalmente em mim. Eu não estaria segura em nenhum lugar. Eu queria confessar a Camila que eu não ia embora porque precisava de uma nova vida – a vida continuaria sendo a mesma; Eu queria sofrer longe daqueles olhares que ela, naquele instante, lançava para mim. Eu não conseguiria enfrentar os encontros com os nossos velhos amigos, todos sabiam de nossa história – começo, meio e, principalmente, o fim. Eu tinha a opção de aceitar a parte de cuidados extremos que todos os bons amigos guardam para momentos como aquele, mas chegaria o dia que a minha dor não passaria, porque eu estaria viciada em cuidados, na pena, na extrema atenção, e por sua vez, meus amigos se cansariam, cobrariam uma mudança radical, alegariam que passara tempo suficiente e era hora de mudar, esquecer tudo de ruim. As amizades se findariam no exato instante que eu, viciada em melancolia, me sentiria traída, abandonada e passaria a reavaliar a verdadeira amizade.

Eu revirei os olhos. Ela sabia que não arrancaria mais nada de mim. Seu corpo miúdo e agitado se lançou contra o meu e compartilhamos um abraço cheio de palavras emudecidas. Ela sabia que falar apenas aumentaria as minhas rachaduras, feridas seriam abertas e um mar de dor jorraria naquela sala – onde havia compartilhado com ele pequenas festas, bom sexo, alguns pratos quebrados… Dizer que sentiríamos saudade era pouco, pois tínhamos consciência da ausência imensa que acabara de nascer. Não voltaríamos aos anos bons, dali em diante eu me tornaria uma boa lembrança, alguém que ela sentirá saudade nas reuniões de final de ano, nas datas importantes, até não mais conseguir lembrar de como nos conhecemos, quais eram os motivos de nossa amizade, as afinidades, e como eu parti. Sabíamos – incapazes de confessar – que as promessas de visitas futuras seriam quebradas no exato instante que eu fechasse a última caixa. Algumas amizades tinham a tendência a durar o tempo exato de um surto de felicidade.

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