DESPEDE-SE A MELHOR PARTE DE VOCÊ EM MIM

despede-se-a

Baltazar acreditava na monogamia como uma forma real de compromisso amoroso. Era um veterano precoce da dissipação do seu coração que teimava, desordenadamente, em curvar-se aos jeitos delicados de uma moça que ansiava por novos mundos, de preferência sem a presença insistente de um jovem com alma de velho. Diziam as más línguas, que o pobre Baltazar sofria de mumificação da alma, esse tipo de doença filosófica que se cria apenas para apaziguar a solidão. Era um defensor das belas artes, principalmente daqueles com pouca roupa. Caminhava como um lorde, mas suava como um operário quando se via frente às donzelas da sua rua. Porém, por descrença de muitos, principalmente dos amigos boêmios, lá estava Baltazar a andar de mãos dadas com Sofia há mais de oito meses. Alguns diziam que não duraria muito tempo, afinal, oito meses com a mesma mulher, corpo, voz, toques, beijos, cheiro, era pedir demais para um homem como Baltazar. Outros, claro, talvez os mais românticos, acreditavam que enfim o rapaz tinha alcançado o status de homem sério e passou a ser devoto, quem sabe, do matrimônio.

Especulações e teorias de lado, o importante era que Sofia fora a única mulher que conseguira despertar em tal senhor, as principais reações amorosas que um indivíduo da sua estirpe poderia sentir. Nada mais completava seus dias se não estivesse embriagado, praticamente, afogado no cheiro devasso e perturbadoramente louco de sua amada, a rainha da imensidão dos vasos coloniais guardados a sete chaves em seu coração de menino. Uma aceitação tão mordaz da mocidade e subitamente devorada pelas falcatruas poéticas recitadas por tais lábios incólumes aos beijos desvanecidos que aquela senhorita esbanjava na face do nosso guerreiro. Anterior ao deslumbramento de Sofia diante seus olhos, Baltazar recusava-se a ver poesia entre madeixas encaracoladas, ou vozes delicadas. A duras penas ele suportava ver à luz dos raios de sol o rosto da mulher com quem passara a noite. Imagine passar oito meses trancafiado nesse universo de contentamento de apaixonado desmedido, que respira a pulsação da amada, joga-se ao mar de impurezas pérfidas de uma jovem sonhadora e cheia de tentações para serem desvendadas pela língua magistral de um cortês em busca de matrimônio. Não havia motivos para a união, eram completamente diferentes, julgavam até que seriam a Lua e o Sol, e que todo o romance não passava de um mero eclipse não previsto, logo, deveriam se separar. Mas o mundo não contava com a insistência da teimosia do coração de Baltazar; um homem nada lírico, medidor de palavras, conhecedor de números, mas olvidava-se de quantas vezes teve a alma do seu órgão, poético amoroso, despedaçada, e isso não era mais um empecilho para a continuidade daquela devoção divinal aos olhos de serpente apaixonada de Sofia, a dama da sua consciência perdida.

Baltazar sentia-se um figurante que havia esperado por toda a sua vida, em vários e vários atos, o momento solilóquio que o remediaria, deixando gravado nas mentes dos espectadores dessa macabra encenação da sua própria vida, seu rosto contente e vibrante, até mesmo ruborizado, por ter encontrado a fonte da existência da vida na língua da bela e exímia Sofia. Longos e cansativos foram as discursões acerca a fidelidade e comprometimento para com a sua Sofia, travado contra seus modestos amigos que incidiam sobre a verossimilhança em ser acorrentado com uma única alma falante. Baltazar sustentava com força e firmeza suas concepções acerca o comprometimento com a fidelidade não ser laboriosa a partir do momento que se cria um laço de amor, respeito, confiança, uma unificação de reinos internos em prol da sustentabilidade e equilíbrio de uma relação pautada na felicidade de ambos, na entrega mútua e eterna, devido a isso, queimaria no fogo da respeitabilidade do casal, as necessidades aparentemente naturais da traição. E tomado por um desses momentos únicos de certeza que invadem a alma, amordaçam os dizeres comuns do dia-a-dia, Baltazar sentiu-se na obrigação em declarar tais belas palavras, bem criadas, escolhidas, para sua amada Sofia que o aguardava, segundo sua mente, em casa, deitada na cama dos dois, que por horas e horas se amaram como selvagens apaixonados e jovens descobrindo os meandros devassos do acasalamento de corações decididos a pecar pelo bem da vida de duas almas fadigadas de penar em busca da felicidade que agora, no caso da amada do nosso guerreiro, andava de calcinha pela casa com os seios desnudos, algumas vezes, excitados, enrijecidos e deliciosamente convidativos.

E fora esse mesmo discurso de peito aberto que Baltazar acabava de reproduzir, ajoelhado ao lado da cama, ocupada pelo belo corpo de Sofia – um monólogo desajeitado, cheio de erros de concordância, algumas vezes paralisado pela tensão em causar algum dano irreparável na concepção que sua amada alimentava por ele. Até mesmo sentir-se um completo palhaço vulnerável aos ataques infelizes da maldita deusa do amor que residia em silêncio, durante o dia, na doce Sofia, e mostrava suas garras nas horas das penetrações mais sacanas em meio ao chão da cozinha, sobre a lavadora, ou entre os xingamentos excitantes nas horas do sexo mais hostil, porém inebriantes. Comovido com suas palavras arrazoadas, Baltazar esqueceu, por fim, de perceber o silêncio inquietante de Sofia e sua reação em simplesmente permanecer de olhos fechados, respirando devagar, como se rezasse, perdida em uma oração languida e nostálgica, bebericando dos milagres inconcebíveis naufragados em seus lábios. Seu corpo estendido sobre a cama, com uma única proteção da sua vergonha mais deliciosa, deixando, para enlouquecimento gradativo dos instintos mais masculinos de Baltazar, todo o resto do corpo, como suas coxas lisas, macias e pálidas como a luz da lua sob a areia da praia; seus seios, moinhos de tentação, que se mostravam tão onipotentes perante o ato simbólico da respiração, provocando arrepios pelo corpo de Baltazar que corria lentamente a ponta da sua língua entre os lábios, imaginando-a correndo livre por entre aqueles biquinhos perfeitos e duros, mordiscando-os com certo carinho que o excitaria de todas as formas possíveis, deixando-o ainda mais certo da vontade perturbadora de possuir aquele corpo juntamente com a alma da sua amada.

Um sobressalto das palavras do seu monólogo correu mais uma vez por sua mente, repassando ponto por ponto, verificando se tinha acrescentado algo que poderia ter ferido os sentimentos de Sofia; jamais se perdoaria, ficaria a noite inteira sem trocar uma única palavra, enquanto ela dormiria sozinha com aqueles lindos seios.

- Baltazar. – ela jamais o chamará assim após a primeira noite de amor deles.

Não houve resposta.

- Eu dormi com Gabriel.

Por alguns minutos, Baltazar, viu-se atrelado as possibilidades de reconquistar sua honra destruída por uma manta de cornudo atordoado, vociferando palavrões e ameaças de morte para todos os cantos. Morreu aos poucos como uma gota de lágrima que nasce no ventre dos olhos e corre livre como uma criança entre a relva, para secar com a ação do vento, das mãos ou apenas do tempo, deixando um rastro de dor por onde passou. Vomitou seu coração com muito esforço, pois estava decidido a cair de joelhos diante o nada e olhar para o mesmo, se ainda teria coragem de voltar a bater no mesmo compasso que um indivíduo sem o presente da traição sobre a cabeça. Estava agora carregando seu próprio caixão; madeira velha, forçadamente escurecida, cheia de lacunas, ousadia de quem ainda acreditava no sol, mas não Baltazar; não Baltazar, o traído, o desmembrado, o infeliz que tinha desperdiçado sua mocidade para amar a doce e incontestável Sofia que apenas se mantinha segura, em pé, diante seus olhos derrotados que se recusavam a encará-la, muito menos com seus seios perfeitos desnudos, não apenas para ele, mas para o maldito mundo. Uma embolia o fulminava. E mais uma vez como figurante da sua própria peça teatral, viu um outro ser seguro de si, firme nas palavras, com a dor exposta nos olhos a indignação no tom das palavras, exigir uma explicação, uma justificativa que tornasse tudo menos penoso, quebrável, irrecuperável. Porém, logo em seguida, viu-se dominado pela dor do desgosto, e ao abrir novamente seus lábios, libertou o choro infantil, despedaçado, como se chorasse cada centímetro do seu coração feito em minúsculas partículas, tornando-se chuva de sofredor, lágrimas de vencido. Sentiu a ponta dos dedos de Sofia deslizar pelo seu queixo, tentou lutar contra tal ato, mas estava estagnado, cumprindo sua sentença de dor, perpetuado pelo funeral do seu coração assassinado pelas necessidades naturais tão condenadas por seu amor desmedido, não compatível com o empacotamento dos sentimentos. Sentiu vergonha, medo, desespero, mas continuou sendo uma rocha chorosa. Ela procurou seus olhos, mas encontrou, pela primeira vez, o vazio sombrio, uma catedral de dor, minutos atrás, violentada pelas palavras cuspidas despreocupadamente por Sofia, que agora analisava uma lágrima que ainda escorria com teimosia, indignada pela dor que deveria ser manifestada por ela.

- Não chore, meu amor… Eu precisava fazer antes de entregar-me por inteira a um caminho sem volta.

“Sem volta… caminho… fazer…” Baltazar via-se quebrado em lugares imagináveis, enquanto vasculhava maneiras, de extirpá-la do seu lado, arrancá-la com uma foice do seu coração, matá-la gradativamente a cada raiar de sol, mais penoso do que um desastre de avião, uma oscilação das estações do ano, mais forte do que simplesmente deixar de amá-la, era preciso, antes de tudo, matar a si mesmo, como um suicídio calculado, ministrado por doses e doses de veneno da mais viril serpente – essa parte providenciada por Sofia com tanto requinte.

- Não são lágrimas. São despedidas do melhor que havia em mim. – disse, por fim, uma voz fria que se afastava na escuridão do quarto dominado pelo cheiro de morte, dor e saudade.

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