A PARTILHA

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Ao contrário do que eu esperava, não tivemos problemas na partilha programada dos móveis. Ao longo dos anos, conseguimos escolher e comprar sempre juntos, e a minha densidade sentimental, em muitos casos, chegara a eclipsar completamente o valor funcional ou estético de cada peça, como se grande parte de mim estivera recusando a ideia da separação, dividindo os momentos de ouro da nossa história de amor. Era evidente que meu coração não se acostumaria aos vazios que seriam criados a partir da divisão. O que colocaria no lugar da poltrona que você usava para mexer em sua unha? Entristece-me de uma forma perturbadora saber que a poeira ocupará as lacunas deixadas por você. Era isso, precisamente, que transformava a tarefa de reparti-los, a priori, impossível, sofrida, até mesmo desnecessária por assim se dizer. Se eram frutos do amor, do nosso amor – pergunto-me – se cada objeto era, de alguma forma, um monumento que comemorava os capítulos dessa história sentimental entre nós, como haveriam de existir separados depois que tudo chegasse ao fim? Qual a lógica de destruir esculturas de amor e dividir os destroços de nós?

Eu permaneci em silêncio, dopado pelos golpes que recebia cada vez que suas mãos arremessavam para as caixas com nossos nomes, objetos que tinham se transformados em filhos, em cúmplices e testemunhas das horas e horas em que passamos juntos, trocamos juras de amor que jamais pensamos que se quebrariam. Por isso optei pelo silêncio e a aceitação involuntária, tinha medo que suas mãos apressadas também decidissem repartir o pão que alimenta até hoje o meu coração: as memórias. Não suportaria. Não haveria força oculta que conseguisse me manter em pé, sobrevivendo nas horas, se por alguma loucura da sua vontade, retirasse de mim a esmola de viver, pelo menos agora sem você. Um homem na minha idade não sente mais a fúria da tempestade, nem se incomoda com o barulho ensurdecedor dos automóveis; um homem na minha idade perdeu todas as suas certezas porque acreditou apenas em uma, no meu caso, você.

Ao ver a forma como dançava por entre os móveis, gradativamente etiquetados, demonstrando que ao longo dos anos fora capaz de aprimorar a capacidade de decifrar as afinidades íntimas que eu tinha com determinados móveis a ponto de não precisar da minha opinião ao separá-los, eu apenas observava como um telespectador grudado em sua poltrona em uma sala escura de cinema, com os olhos fixos na tela imensa que quase me engolia, aprisionado nas cenas de horror, com as pálpebras cortadas impossibilitando o fechar dos meus olhos. Não era nem capaz de chorar, pois esse ato diante seus olhos seriam repudiados, e minhas lágrimas afastadas com seus dedos macios e finos, enquanto me diria que estava tudo bem, que não valíamos as lágrimas. Não valíamos? Por isso continuei naquela tortura interminável, pigarreando algumas vezes quando queria equilibrar a dor e o desespero para não dar espaços em branco para o choro, o soluço, o pranto que ardia incontrolavelmente em minha garganta. Tal como supracitado, um homem como eu não se tem permissão para chorar por amor. No entanto, mesmo liberado da tarefa em escolher o que me valia mais, eu comecei a sentir enjoo, como se, de tão civilizada, a separação irradiava o aroma de uma fruta deliciosa, porém excessivamente podre, como se em minha mente os campos não permanecessem mais floridos, mesmo sentindo o cheiro absurdo de cada flor se misturar, sufocando minhas vias respiratórias. Naquela manhã, eu consegui sentir meu coração blasfemar alto o suficiente para que sua cantoria fosse ouvida de fora, do mundo em que estava sendo expulso com meros trapos e móveis como herança. Era exatamente assim que me sentia, um vagabundo que havia conquistado uma riqueza milenar, saboreado dos mais deliciosos e caros jantares a luzes de velas e regados a perfeitos vinhos, e agora me encontrava sem nenhuma gota de esperança, sem você – a minha herança.

Passamos de cômodo em cômodo como um par de avaliadores enternecidos, e você, detendo-se sempre um pouco a mais na maioria dos móveis, recitando com tanta calma e precisão as informações sobre cada um deles, em qual cidade e ano compramos, o que fizemos depois de adquiri-los, quanto pagamos; até mesmo as poltronas alinhadas ao fundo da sala secundária que por tantas e tantas vezes fizemos amor de uma forma inapropriada, perdendo um tempo imenso em lhe sentir sobre meu colo a galopar – era uma visão poética lhe ver saltar os seios tão agitados e excitados, os fios do seu cabelo se misturando com as partículas de poeira visíveis apenas quando cortavam um traço de luz que escapava por entre a madeira da janela. Recordar assim da sua boca entreaberta expelindo arfadas métricas, tantas outras enlouquecidas enquanto lutava para me fundir ainda mais em você. Era possível que você também tivesse essas mesmas recordações tão claras como em minha mente? Por vezes acreditei que sim, quando nossos olhares se esbarravam por entre os móveis, quando seus dedos corriam por minha pele, sempre seguido de uma desculpa infantil, doce, quase que proposital. E por mais que eu tentasse lutar para não implorar que me permitisse lhe amar ali mesmo, sobre o carpete que compramos na nossa visita a Minas Gerais, meu coração recriava as cenas mais fortes que tivemos, apaixonados, mergulhados no bálsamo do amor, no elixir da eternidade, que agora se esvaziava, assim como a casa.

Não apenas partilhamos os bens, mas nossos corações, pois metade do meu se metera em alguma daquelas caixas, se afogando nas mais diversas ondas de lembranças, tentando se agarrar a qualquer fio de vontade, quem sabe até de esperança. Porém nada adiantou, ou conseguiu suportar por mais alguns minutos, quando esbarramos na caixa de fotografias ao canto. Eu podia ver as mãos dos órfãos das nossas memórias se esticarem e balançarem de um lado a outro, suplicando que fossem resgatadas. E foram, mas logo em seguida, separadas pela adoção de pais diferentes, que estavam destinados a caminhar por estradas opostas, ou talvez como em meu caso, não caminhar, apenas se negar a prosseguir quando o vazio que habita em mim se concretiza, erguendo um muro de lamentações desprezado por sua vontade em viver.

Éramos bons. Sempre fomos. Talvez bons demais e por isso nos repartimos, nos destroçamos, nos dividimos. Porque juntos éramos tão perfeitos que imperfeitos como nós não possuíam gabaritos profissionais capazes de sustentar. Hoje… somos sozinhos e nada a mais.

 

 

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