SE APAIXONAR É UMA CONSTANTE ESPERA?

textok

 

Você aperta os olhos para não chorar, tenta se controlar e buscar um pouco de paciência presa naquele antigo frasco de vidro, esquecido em uma das prateleiras da sua sala. Não adianta ficar sentada no sofá, roendo as unhas, arrancando os fios do seu cabelo enquanto o enrola. Ele não vai ligar. Inevitavelmente, você começa uma prece em silêncio, implorando que alguma luz corte os olhos dele, reproduzindo a sua silhueta ou a imagem do seu rosto em alguma parede, e isso talvez desperte a memória daquele idiota e o lembre que você ainda espera uma ligação.

As horas continuam passando e nada de bom acontece. A noite vai sendo emoldurada pela janela ainda aberta, permitindo que insetos noturnos adentrem o recinto. E você ali, afundada no sofá, com os olhos perdidos em uma sombra curiosa que produz algum desenho estranho que você não consegue identificar. Na sua mente são repassadas todas as possibilidades de ligar para ele, sem que o mesmo note seu desespero, sem que aparente alguma aflição. Afinal, você disse enquanto jantavam na semana retrasada – ou foi no mês passado? – que era uma mulher independente e não se preocupava com relacionamentos sérios, raramente tinha tempo sobrando para isso. Porém, ele deveria ter interpretado de forma diferente, ter insistido em lhe fazer dependente dele – e o fez, mas da forma errada.

Agora, lhe restara somente ficar esperando uma ligação que não iria acontecer tão cedo. Ele disse que você era o tipo certo de mulher, mas ele o cara errado. No começo, você não entendeu, todavia, agora isso começava a fazer sentido. Sem flores, sem cartão, sem mensagens apaixonadas no meio da noite, sem um olhar meigo que lhe faça tremer as bases. É, ele não é o tipo de cara que ligará para saber se andou pensando nele, se refez todos os momentos doces que compartilharam, mesmo quando apenas você estava mergulhada na fantasia que se amavam.

Ele partiu, mas você ainda insiste em acreditar que uma ligação mudará toda a realidade da sua dor, fabricará uma cobertura impermeável de mentiras que lhe darão algum conforto, pelo menos no começo. Suas amigas dizem que deveria se valorizar mais, só que elas não compreendem que você deu todo o seu valor para o maldito cara que não liga, não pergunta como foi seu dia, só quer lhe encontrar depois das dez, ou quem sabe pra lá da meia-noite. Só que você luta, busca de alguma forma colocar cor nessa relação, nessas idas e vindas depois do horário nobre, e não consegue, mas mente para si mesma que é capaz de aturar mais um mês assim.

O único som que ouve é da sua respiração tentando ser controlada por sua mente aflita. Expulsar os pensamentos não é mais uma tarefa fácil, principalmente quando se sente sozinha. Curioso, ser sozinha virou costume. Seu coração tenta bater em sintonia alfabética para lhe convencer mais um pouco que chama apenas por ele, mas não chama, afinal, seu coração é burro, tão burro que se tornou analfabeto.

Você suspira desconsolada, deixa os olhos saltarem de uma fotografia a outra sobre a mesinha de centro. Tantos rostos, quase conhecidos, e você sentindo apenas a ausência dele, como se todo o seu mundo se tornasse um plano de fundo bem distante de você, dele, da sua confusão, da inércia dele, dos tormentos, da sua mania em achar príncipe encantado em todo cachorro vadio que passa na rua. É, meu bem, você se sente só, sem abrigo, apenas com a presença das suas memórias, das derrotas que andou colecionando, e das lágrimas que irão romper em seus olhos, buscando uma liberdade sofrida.

E então, por fim, você percebe que simplesmente ele não ligará. Infelizmente, você se apaixonou por uma pessoa que não compreende que pode mudar a sua vida com uma ligação, nada mais que um minuto; nada além que desejando uma noite tranquila, que sente sua falta. Será que se ele soubesse… É pedir muito? Talvez o ato em pedir seja um erro, apaixonados não precisam pedir, lembrar datas, essas convenções sociais se instalam na mente da pessoa assim que se apaixonam – pelo menos é assim nos filmes e livros.

– Lá vem, mais uma vez, a solidão. – murmura ao vento.

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