Crônicas e Poemas, Slide

Ruminar

28 de junho de 2017

Câmera Moto Z – VSCO.

As primeiras horas do dia rompem as nuances sombrias de sua barba –
Sinais de descontrole, paixão e fúria.
Caminhos seguros.
Meus dedos resvalam as ondas corpóreas de nós dois.
Transição.
Corpo.
Sexo.
Os lábios maltratados do sono se estendem na comissura de sua boca –
Tropeço;
Bebo;
Embriago-me.
Laços de anos equilibram a memória.
Perco-me nos declives de seu pescoço e venço o mundo.
O ruminar de sons, eclipse, loucuras.
Pálpebras que se cerram.
Escuridão.
Tortura.
A entrega serpenteia os olhos.
Dois corpos.
Tua barba em meu colo, ventre…
Sorrisos.
Emudecemos.
O instante se dobra e não há mais murmúrios.
Silêncio.

 

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Não há poesia na depressão.

16 de junho de 2017

Créditos: pexels.com

Disclaimer: O texto que se segue é um excerto do meu livro Sol em minha Noite – nova versão. Então, não há um fim exato, pois faz parte de uma cena inteira. Contudo, achei válido dividir com vocês as palavras da nossa protagonista Helena. Espero que gostem. 

A sociedade tem uma visão muito romântica sobre a depressão. Mas qualquer um que já se sentiu verdadeiramente triste, vazio, incapaz, uma imensa catedral de espelhos sem reflexos, pode dizer que não há nada – absolutamente nada – de poético e literário na depressão. É como um peso que não se pode largar. É carregar um fardo para todos os lados que consumirá toda a sua energia. Retira o sabor da comida; limita a paleta de cores da vida, furta a importância das pessoas ao seu redor e desfaz os laços de uma vida inteira: segurança, tranquilidade, esperança…
Viver com depressão não é viver; é sobreviver, e mesmo assim não saber o porquê. A noção do tempo deixa de existir, se dissolve completamente junto com os ponteiros do relógio. Ela se alimentará de todas as coisas boas que você colecionou até agora, em pequenos fracos invisíveis – desde suas memórias até as boas intenções. Você esquecerá como sorrir, por exemplo, e quando esperarem risos seus só encontrarão silêncio. Eles não entenderão que você desaprendeu a sorrir. E todos os espaços – antes repletos de sentimentos, emoções, sensações e memórias – serão preenchidos pela depressão e seus soldados (sim, ela não vem sozinha): ansiedade, medo, solidão… É nesse momento que você deixará de ser você para ser apenas uma pessoa depressiva. Você se tornará ela, nada mais. Ela estará em seus ossos, em seu sangue. Você será a própria depressão.

E as demais pessoas? Bem, boa parte não entenderá porque são, antes de tudo, indivíduos egoístas, sarcásticos e egocêntricos. Dirão ser uma fase, uma moda, uma rebeldia que logo será esquecida – talvez por eles, jamais por você, porque a depressão não te deixará esquecer um único segundo que ela está bem ali no centro de tudo, em seu interior, transformando um simples ato de escovar os dentes em uma tarefa complexa que exigirá demais de você. Ela é tão poderosa que se torna invisível; não se trata de algo exterior, não há sinais claros, manuais específicos. Nunca foi algo de fora para dentro – nunca, não é mesmo? Está tudo aí dentro de você – construindo camadas e mais camadas, soterrando toda a vida que resta, erguendo muros e prisões para afastar o mundo, a realidade, a porta de saída e/ou qualquer um que tente se aproximar. Ela se mantém viva em contrapartida das nossas partes emocionais em decomposição. E quando não conseguir mais respirar, quando os muros estiverem altos demais, as grades grossas demais, você se dará conta do quanto essa doença lhe manteve isolada do mundo, remoendo solidões e tristezas.

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Sobre quebrar paradigmas emocionais.

15 de junho de 2017

Semana passada, estava olhando meu histórico de fotos publicadas no instagram, e percebi que haviam diversas versões de mim mesma, sendo nenhuma delas verdadeiramente quem sou. Constatar que ao longo dos anos eu reinventei ou inventei imagens sobre mim foi devastador, não de uma forma absurdamente negativa, mas como um alerta urgente sobre o rumo de minha vida e a forma como eu queria que o mundo me visse. Talvez, claro, o problema está na necessidade em ser vista, pois é certo que há uma possibilidade de que outros acreditem nisso. Eu comecei a eliminar algumas centenas de fotos sempre relacionando “o que isso agrega de positivo para o mundo?” ou “esta foto tem algum valor real para as minhas memórias?” Foi desconfortante perceber que havia tanto lixo, futilidade: “eu realmente precisava postar isso ou aquilo?”, “por que postei esta foto?”, “qual o propósito?”

How much does a hipster weigh? One Instagram. —  Ryan Nicodemus

Cada foto apagada foi como um despertar gradativo para a realidade, o problema estava muito além da imagem que eu queria passar, e sim, em como eu estava tentando me encaixar em moldes, mesmo quando sou totalmente contrária à eles. Esse pensamento de buscar utilidade nas memórias me fez compreender, finalmente, o motivo de ficar tão distante das redes sociais, não encontrar propósito em postar todos os dias, mesmo que venha a ser uma selfie. Nada dessas postagens estavam alimentando a área de significado em minha vida, pelo contrário, serviam somente para sustentar um ego frágil. Eu estava dançando o minueto, seguindo os mesmos passos de dança de tantas outras pessoas aflitas por “visibilidade”.

Por que eu precisava postar cada compra que fiz? A foto de uma xícara de café mudará alguma coisa ou só servirá para contribuir com a imagem de “pensadora contemporânea”? O que eu realmente estava vendendo com todas essas imagens?

Posso dizer que esse tal despertar começou um pouco antes, no ano passado, quando me peguei sentindo a necessidade de criar ambientes para ter o que postar, compartilhar, ser vista. Passei a desapegar-me lentamente dos laços e obrigações virtuais, por assim dizer. No começo, questionei o valor dos meus posts, determinei que somente postaria algo se minhas palavras ou a informação compartilhada por terceiros serviria para auxiliar no processo de redescoberta de tantas outras pessoas. Afinal, eu tenho uma certa carga de responsabilidade em relação a forma que contribuo com a vida, quero dizer, eu sou professora, lido com mentes em desenvolvimento, angustiadas, cheias de questionamentos (ou necessitadas deles), e deveria aproveitar a facilidade do acervo de conhecimento virtual para adicionar saber que liberta, auxilia, movimenta o mundo de forma mais consciente. Entretanto, eu estava caindo na mesma armadilha de vender um propósito fabricado, organizado para ficar melhor na foto, conquistar likes, ter compartilhamento. O que eu realmente estava querendo afinal de contas? E quando não consegui responder entendi que estava somente servindo como facilitadora da inutilidade excessiva.

Now, before I spend money I ask myself one question: Is this worth my freedom? Like: Is this coffee worth two dollars of my freedom? Is this shirt worth thirty dollars of my freedom? Is this car worth thirty thousand dollars of my freedom? In other words, am I going to get more value from the thing I’m about to purchase, or am I going to get more value from my freedom? –  Everything That Remains: A Memoir by The Minimalists.

E não, não estou querendo dizer que precisamos nos manter úteis o tempo inteiro, já falei sobre isso em outro post. Mas, não precisamos nos obrigar a mostrar utilidade, servidão para o mundo todo o tempo. Somos indivíduos, não máquinas.

Acredito que muito desses meus questionamentos vieram a tona porque me encontrei na certeza que fazer trinta anos foi uma das melhores coisas que aconteceram comigo. Aos poucos, estou reorganizando minha vida, inicialmente pelo lado emocional de tudo. Não consigo ver drásticas mudanças na forma como encaro a vida sem antes me dedicar a enfileirar minhas emoções e analisá-las por prismas distintos e ver os resultados. Eu ando, de certa forma, testando a vida e encaixando o que me faz feliz nas escolhas. Até mesmo encontrei novas interpretações para as ideias de Boaventura acerca a quebra dos paradigmas: não se trata apenas da vida em sociedade, dos aspectos extra-cognitivos; as revoluções mais significativas iniciaram com o romper de pensamentos programados, de emoções frágeis e rasas. Eu também estava precisando quebrar paradigmas, mas, principalmente, os emocionais.

Para que vocês tenham ideia, eu surtava quando relia minhas escritas e achava uma simples vírgula no lugar errado, porque aquele pequeno traço, um maldito caractere no lugar sintaticamente errado seria interpretado como uma suposta incapacidade de minha parte, um fracasso do não domínio total da Língua Portuguesa, e olhe só: que tipo de professora eu seria se cometesse o erro de uma vírgula errada? (Sim, é pura ironia.)

[Aproveito o gancho para esclarecer que não reli este texto nenhuma vez. Ele irá de forma crua ao mundo, que se dane!]

Houve um momento maiêutico para mim quando me dei conta que estava tentando encaixar a minha imagem ao que via, foi quando percebi: se eu, uma adulta com um histórico de leitura complexo, cheia de opiniões, estava vitimando meu conceito de vida, imagine o estrago que isso causa na mente de tantos jovens despreparados. Eu precisava mudar, não porque agora eu iria ter uma vida minimalista (porque isso também seria captar a ideia de outro e inserir em minha vida, quando na verdade só estaria repetindo padrões), e sim pelo motivo de encontrar significado em minha passagem pela vida. O que eu estava fazendo de bom (realmente bom) para mim? Como eu estava cuidando de quem sou? (Ora enfiada em dietas altamente restritivas, ora desleixada com o que eu comia…)

Eu não preciso descobrir em qual exato momento as coisas saíram dos trilhos da minha ideologia de “eu não sou como os demais” – sendo que essa ideia de ser diferente porque não precisa seguir padrões, virou um padrão. Eu apenas deveria entender no que havia me tornado e se isso me dava algum tipo de felicidade. Cá entre nós, se eu fosse realmente feliz assim, tudo bem para mim. Porém, eu não sabia como ser feliz se toda a vez que eu alcançava um objetivo, criava um ainda maior. Eu estava constantemente preocupada em atingir metas, objetivos, fazer listas de “coisas que preciso fazer antes dos 30” (e os trinta chegaram e eu só tinha uma lista de “coisas que não fiz antes dos trinta” e do outro lado “coisas que eu fiz antes dos trinta que não mudaram em nada a minha vida”), quantos livros eu precisava ler durante um ano para ainda me sentir intelectual e atualizada…

Em contrapartida, eu sei exatamente o instante em que tudo se tornou mais claro para mim: eu estava tomando café com Rafael, e conversávamos sobre as pequenas reformas que faríamos no fim do ano – tínhamos escolhido não viajar para o exterior e deixar nossa casa mais como nossa “cara”. Eu listava todos os utensílios domésticos que precisávamos e os móveis. “Precisamos comprar um sofá daqueles que se transformam em uma cama.”, Rafael simplesmente olhou para mim e perguntou: “Precisamos mesmo de um sofá?”, nossa… Esse foi o momento! Eu fiquei em silêncio por não saber se eu realmente precisava de um sofá-cama ou até mesmo de um sofá! Eu olhei para todas as diversas prateleiras de livros abarrotadas (alguns ainda nem li) com títulos indicados por desconhecidos, as centenas de maquiagens (batons que nem ao menos testei) usadas por x pessoa ou grupo sociais, as trocentas camisas – que serviam apenas para dizer: “eu sou cool porque uso camisa nerd, de banda antiga, filmes de terror da década de 80” – empilhadas em um canto da sala, e até mesmo meu celular com mais de três mil fotos esperando ansiosamente serem postadas para dizer ao mundo “estou usando a base da marca tal, o batom x, da cor y”, mas… e daí? Eu estava gastando meu tempo e dinheiro em construir uma imagem que deveria significar “eu estou fugindo dos padrões”, quando na verdade eu era uma escrava do próprio padrão livre que eu acreditava! Foi um momento agressivo, não de forma física, mas substantivamente emocional.

Eu não estou querendo vender uma nova forma de viver, agora minimalista. Não, nada disso. Eu ainda adoro meus batons! Não estou falando sobre minimalismo, mas em não me transformar em alguém que não sou. Descuidei-me em algum momento da minha vida nos últimos anos, e quando acordei simplesmente entendi que estava me fabricando para ser notada(?). A vida contemporânea está cercada de rótulos, de todos os lados: feminista, anarquista, revolucionária, desprendida, etc, etc, etc… As palavras são lançadas sem um real significado, como tudo hoje é empoderamento, mas o que de fato isso é? Como contribuirá positivamente para um bem-estar tanto social quanto emocional, se não abro o leque dos significados(?), uma vez que o mercado está se apoderando dessas palavras importantes e indispensáveis para o romper das correntes de opressão, escondendo seus significados embaixo de camadas e mais camadas de propagandas que insinuam a liberdade das pessoas, caso elas comprem determinado produto ou gastem dinheiro com certo serviço.

Eu não irei sumir das redes sociais, deixar de escrever em meu blog, fazer propaganda dos meus livros – não, nada disso. Todavia, só irei compartilhar com o mundo se aquela foto/texto/livro/notícia estiver envolto de mudança positiva para alguém, sem isso, não há nenhuma razão para adicionar mais material inútil ao mundo, já estamos cheios disso.

E, definitivamente: “Não, amor, não precisamos de um sofá novo.”

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Redescobrir essas tantas outras novas terras que há em mim.

11 de junho de 2017

Da janela de minha casa eu vejo a poesia no céu.

Eu estava perdida ou apenas tirando férias dos caminhos. Talvez a ideia de sempre seguir uma trilha não seja capaz de preencher meus vazios ou responder minhas dúvidas – e elas, bem, elas persistem. Eu tenho recriado mapas, fazendo novas trilhas invisíveis e contornando inusitados territórios esquecidos. Mas esse mapa é meu, é sobre mim, minhas perdas e ganhos, partidas e chegadas. São mapas conscientes de minha existência, do espaço que ocupo na vida, nos outros e em mim. Não deixarei nenhum território sem bandeira, ando haspeando-as com vigor. É uma tarefa demorada, letárgica e sempre saudosista, mas tenho conquistado vitórias significativas. Talvez eu seja a nova safra de Colombo e suas aventuras de desbravar o já desbravado.

Eu gosto de traços e das minhas trilhas. Entende o que quero dizer com “minhas”? Eu as criei, não tenho arrastado meus pés nas estradas que tantos outros já percorreram. Eu quero tudo novo, tudo meu. Confesso, claro, nem sempre é em sua totalidade novo, e no entanto me pego colecionando sorrisos porque encontrei novas rotas para o mesmo destino. É quase como reconhecer que há um (ou milhares) de prisma sobre o mesmo ponto.

Há dias de completa solidão quando nem mesmo uma leve brisa vem me visitar, agitar minhas folhas rabiscadas ou chamar minha atenção para a mudanças das flores. E mesmo quando esses dias de angustiantes silêncios me invadem, ainda sou dona de minhas rotas, controlo o tom dos pensamentos, das memórias e nada, absolutamente nada, foge de minhas rédeas. Eu sou a dona de meu destino.
É certo que muitos se afastaram, não reconheceram os sinais clássicos de empoderamento sentimental que ando construindo ou se assustaram com minha autonomia emocional. Descobri que algumas pessoas (ou centenas delas) têm medo de tudo aquilo que é desconhecido, inesperado, independente e indomável – eu sou bem essa última parte. Não posso perder meu tempo parada no meio da construção de meu mapa-múndi, se resolveram me deixar sozinha na jangada, tudo bem, só preciso aprender a domar as ondas e conquistar novos oceanos. 

Eu aprendi a redescobrir essas tantas outras novas terras que há em mim.

Essa parte – em particular – eu chamo de VIDA.

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Nossa Temporada das Flores

4 de junho de 2017

Você me descobriu em uma dessas últimas noites de abril, quando o mês insiste em se prolongar um tanto a mais, sem pretensão de ser esquecido, de usar até o último segundo para se transformar em incrível. Ainda lembro de teus olhos afastando toda a escuridão da noite, criando uma camada de proteção contra os pingos tristes de uma chuva tímida. Daquele dia em diante, fui incapaz de piscar os olhos e perder qualquer detalhe de tua íris. Eu bebo de teu olhar e num instante depois retorno ao teu passado. Eu acho que ainda dormia quando você chegou, não senti o turbilhão de emoções; estava castigada pela incapacidade de sentir, e no entanto, meu abandono e desastre não assustaram você. É como se, de alguma forma, você já estivesse preparado para compreender meus demônios.

Você aprendeu a enumerar minhas manias que insisto em carregar entre os hemisférios de nossa vida; os sorrisos, e até mesmo criou um manual detalhando cada olhar. Você sabe que posso recitar meus melhores poemas apenas encontrando teus olhos. Você é como meus versos não escritos. Eu, por outro lado, sou desmedida, aflita e sufocada, me pego tentando recontar os dias que somamos juntos, as datas importantes, as viagens acumuladas, as vitórias conquistadas, como se a cada remexer em nosso museu de reminiscências fôssemos capazes de redefinir novos pontos essenciais para justificar o amor. Para mim, você já foi tantos sonhos, cobiças, flores e frutos, e não sei mais em qual livro antigo realmente te conheci. Suspeito que você já fazia parte de minha vida antes mesmo de nascer.

Mas você bem sabe, nos conhecemos em uma ruína de sentimentos e medos, e você se mostrou um menino que brincava de romance. Até hoje não entendo aquela tal cumplicidade que existia entre você e as estações. Admito que, por muitas vezes, desconfiei de sua natureza, quem sabe você em tantas outras vidas tenha sido o Sol…, o que justificaria essa sua doce mania de insistir em iluminar meu caminho durante a noite. Você tem essa coisa inquieta que podemos chamar de: ingenuidade sentimental.

Já disse inúmeras vezes ao Tempo que devore as horas. Eu quero viver essa imortalidade que os loucos dizem, somente contigo; tecer a linha da minha vida na sua, sem pressa, sem medo, sem remendos. Unir em uma única linha meus pesadelos com teus sonhos.

O mundo já sabe que você me redescobre mesmo quando me sinto perdida. E mesmo eu não tendo dessas belezas leves que agradam ao mundo, teus olhos me encontram como se em mim existisse toda a beleza que você procurou. Esse seu dom natural de transformar o caos em poesia tem desequilibrado a minha lógica todos os dias nas últimas nonas estrelas do amor – daqui a pouco serão dez.

Sua alma me incendeia com a mesma alegria que a última festa de aniversário que tive: o desequilibrar dos passos na sapatilha nova, as rendas do vestido cobrindo meu corpo, o calor das bochechas, e o vento balouçando os enfeites e as cortinas. Hoje, não me recordo de nada além daquela vontade de tocar as nuvens e rasgar os céus. É bem assim que me sinto quando estou contigo, todos os dias. Quando você nasceu, eu já esperava por você – talvez tenha sido no mesmo instante que aprendi a contar as estrelas; eu já buscava por você em tantos outros mundos.

Eu demorei um pouco mais de vinte anos para esbarrar em seu brilho. Desculpa a delonga, precisei afundar e quebrar meu coração algumas vezes ao longo da jornada. Foi difícil. Pensei que não resistiria, mas bastou você surgir para que todas as feridas desaparecessem, como se nada antes de você tivesse qualquer importância ou força. Você se tornou meu soldado, reino e muralha. Tornou-se impossível eu perder alguma batalha. Todas as minhas vitórias tem o mesmo sabor que teus beijos. E mesmo assim, perdoe-me a ausência de vestígios de minha existência ao longo de seus anos antes de mim, foram tempos difíceis para almas solitárias como nós dois. Tropeçamos nas almas rasas de tantas outras pessoas para, finalmente, mergulharmos nesse abissal oceano de constâncias que temos. Eu precisei viver um tempo isolada no mundo, empilhando cartas que nunca enviei, bocas sem sabor, toques ásperos e sem nome antes de cair na imensidão de tua alma, navegar em tua íris.

Eu desconfio que você compõe meus sonhos, pois faz moradia em todos eles, sempre como a força que me resgata ou se afoga comigo, sempre na mesma proporção de alegria ou desastre. Nós sabemos que são meras questões de semântica, para nosso amor tudo se mistura, se funde e nada é jogado fora, até as quedas. Temos manias incontroláveis de permanecer ao lado do outro. Até confundo meu cheiro com o teu. Acho que somos um só habitando o mesmo mundo, dividido em dois corpos. Você se encontra em mim assim como resido em você.

Agora não estou mais sozinha. Não tenho mais medo do mundo. E quando sua boca encosta em minha pele é a vida em sua forma mais pura e simples – é você reconquistando fronteiras em mim. A cada instante me vejo renascendo, tua alma realinhando os cosmos e acendendo as estrelas, é a vida se renovando nas estradas de nosso amor. É chegada a hora de prolongarmos a nossa temporada das flores, meu doce e perfeito amor.